18 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

A onça vegana e o galo machista

‘Quem duvida de estarmos completamente subjugados por uma onda mista de bobice, ingenuidade e arrogância?’

Foto: Acir Galvão/Divulgação

Fico imaginando que daqui a milhares de anos, quando a Terra – a exemplo de outros planetas – terá virado uma imensa bola desértica, seremos visitados por exploradores de outras galáxias. Pesquisando a nossa história arruinada, certamente registrarão os estranhos fenômenos da extinta raça. E lá estará:

“Por volta da passagem dos séculos XX e XXI, o referido planeta foi bombardeado por quilotons de desinformação, mentiras, asneiras, conceitos fantasiosos e tolices generalizadas. Com a cumplicidade dos meios de comunicação de outrora, a interpretação equivocada, o pensamento rasteiro e a estupidez invadiram lares, rodas de bate-papo, discursos de políticos, centros de ensino – desde o básico até academias – e demais ambientes. O lamentável evento afetou o discernimento, a autocrítica e a frágil inteligência dos terráqueos e foi marcante no declínio completo e na decadência total daquela civilização”.

Quem duvida de estarmos completamente subjugados por uma onda mista de bobice, ingenuidade e arrogância? Alguém postou na internet uma cena banal, captada no Pantanal, em que uma onça-pintada atacava e devorava uma anta. Banal, sim: onças estão no topo da cadeia alimentar e se alimentam – entre outras opções do cardápio – de antas. Certo? Que nada: pipocaram comentários de censura, piedade e até revolta contra o fato de um felino almoçar tranquilamente um perissodáctilo na paz de seu próprio ecossistema. “Meu Deus! Que crueldade! Que violência! Puxa, gente; ficaram filmando com o celular em vez de intervir?”, coisas assim. Só faltou a sugestão de se criar imediatamente um centro de reeducação – talvez o Projeto Onça Verde –, ONG com verba federal em que as feras aprenderiam boas maneiras e adotariam dieta vegana.

Também descobri no YouTube o discurso irado de um trio de adolescentes portuguesas de cabelos azuis revoltadíssimas com a postura do macho de um galinheiro por ocasião da cópula com as fêmeas. Segundo elas, o galo submete as colegas do terreiro a uma “postura inadmissível e humilhante, subjugando-as; bicando seus pescoços agressivamente, obrigando-as, enfim, à relação sexual quando bem lhe apraz. Não estaremos contemplando também nos galinheiros odiosos estupros machistas que exijam a imediata reação dos humanos?”, concluíram, indignadas.

Tive o cuidado de checar; eram reações histéricas, de verdade. Daí, refleti sobre o distanciamento da realidade que grande parte das pessoas vem escolhendo na construção de um mundo lindo, fofinho, uma redoma onde todos são bonzinhos, onde o mal e os conflitos não existam. Lá, qualquer vestígio do que lhes pareça “selvagem”, “inapropriado” ou “violento” será imediatamente censurado – em vez de estudado e entendido, como a relação entre o predador e a presa. Aqui se inclui aquele devaneio de resolver os crimes do tráfico entrando num antro de bandidos de camiseta branca, distribuindo flores e cantando “Imagine” – mesmo que não se goze das regalias de um ministro da Justiça, que pode fazê-lo sem medo.

O planeta, a natureza e suas configurações originais existem há 4,5 bilhões de anos. Já nós, humanos, chegamos aqui há apenas 300 mil. Se a nossa lamentável sina resume-se a interferir na ordem natural com arrepios e arrogâncias intempestivas disfarçadas de “ações para o bem do planeta e da humanidade”, já vamos indo bem, esculhambando tudo com pretensas boas intenções.

Quem sabe o planeta – esse organismo vivo chamado Gaia – já não está dando sinais de irritação, remexendo-se em furacões, enchentes, terremotos e incêndios para livrar-se da prepotência dessa espécie insolente chamada Homo sapiens?

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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