9 de agosto de 2022
Erika Bento

Com saúde não se brinca


Tardou, mas não falhou. Mais cedo ou mais tarde, eu tinha que ter a minha própria experiência com o sistema de saúde público na Inglaterra. E foi uma experiência parcial. Ainda não senti na pele o bisturi e nem quero! Por isso, vai dar pra avaliar só parte do sistema. Começando pela equipe de paramédicos que veio me atender, de ambulância. Ah, sim, tinha que ter sido uma coisa de emergência, claro!
Depois de passar horas com dor nas costas e febre alta, decidi romper com os meus bloqueios e chamar uma ambulância. Era sábado, seis e meia da manhã. A ambulância chegou em menos de cinco minutos. Duas jovens paramédicas subiram até o meu apartamento com pesadas bolsas onde, imagino, tenham todo o equipamento necessário para os primeiros socorros. Não precisei de nada. Estava apenas com sangramento na urina, dor nas costas, febre e tremores que praticamente me impediam de andar muito. Resumindo, uma baita infecção nos rins. Eu já sabia, é a minha velha companheira, essa danada.
Depois das perguntas de praxe, me levaram ao hospital, mas só depois de terem certeza de que eu não precisava mesmo descer na maca. “Não, estou ótima” respondi, tremendo enquanto caminhava, como se tivesse um problema motor.
Ambulância superequipada. Senti-me segura só de olhar aquele monte de aparelhos, gavetas, duas poltronas, maca, tudo cheirando à limpeza. Acho que melhorei só com aquilo.
Entramos pelo setor de emergência de um hospital universitário do bairro e fui atendida imediatamente, mesmo que eu não estivesse morrendo. Colhe sangue, colhe urina e, quinze minutos depois, lá fui eu – de maca – para outra parte do hospital. Nada luxuoso, mas muito limpo e organizado. Acabaram me deixando no setor de ressuscitação (por favor, não me pergunte porquê). O enfermeiro, muito simpático e jovem, colocou o soro com o antibiótico e mil fios ligados a um aparelho que media pressão, batimentos cardíacos e nível de oxigênio.
Do lado de lá da cortina azul que separava as camas, havia um homem que, depois descobri, tinha 52 anos, já tinha infartado aos 45 e sentia fortes dores no peito. Devia estar doendo mesmo porque já tinham dado injeção de morfina e o coitado continuava a gemer. Ah, fumante, além de tudo. Não aprendeu a lição…
Bem, fiquei ali uma hora acompanhando meus registros enquanto a dor começava a passar, assim como a febre. Quando contei meu histórico renal, me levaram para fazer uma tomografia no abdômen para ter certeza de que não havia nenhuma pedra. Esperei por mais de duas horas para trazerem o resultado porque não havia nenhum especialista para avaliar o exame.
Enquanto isso, me deixaram na sala de observação. Uma sala interessante. Imagine uma área com leitos encostados às paredes, separados pelas tais cortinas azuis (que ficavam abertas) sendo que, no meio do quarto, dentro de uma sala com grandes janelas de vidros, ficam as enfermeiras. Em volta desta sala, grandes relógios pra gente enlouquecer vendo os ponteiros, lentamente, passar de um minuto ao outro.
Estávamos em cinco pacientes sendo que uma delas era uma jovem russa ou polonesa que havia abusado de remédios e mal conseguia andar (ela disse à médica que já tentara o suicídio por causa do namorado), uma senhora muito magra com manchas roxas no rosto (será que caíra depois de tomar uns drinques? Aqui não faltam bêbados) e uma outra que de uma hora para outra entrou em convulsão, tadinha. Preciso dizer que as duas horas em que fiquei ali foram mais do que deprimentes? Nunca me senti tão saudável e doida para voltar pra casa. Afinal, eu só tinha uma infecção nos rins!
Na segunda-feira, liguei para o posto de saúde do meu bairro. Expliquei o problema e disse que queria ver um médico. Na verdade, eu só queria um atestado para não precisar trabalhar. Não tinha a mínima chance de cumprir a maratona que eu cumpro todos os dias, entre transporte, caminhadas, horas em pé no trabalho ou mesmo sentada. Sem chance. Agendaram-me para às dez e meia da manhã.
Fui atendida pela única médica do posto, uma mulher negra muito sorridente, boa ouvinte e que se mostrou muito bem preparada. Conversamos por meia hora e saí de lá com alguns detalhes extras sobre os exames que eu tinha feito no hospital. O sistema de saúde é interligado, portanto, bastou ela acessar o meu perfil para ter acesso aos registros do hospital. Ponto para o sistema!
Quando chegou a hora do atestado, ela me explicou que um médico só pode dar atestado quando é acima de sete dias (e ela me deu), mas quando eu não me sentisse bem em casa e não precisasse de médico, poderia apenas preencher um formulário (disponível no site do governo) com meus dados e o problema de saúde e entregar no trabalho quando eu me sentisse melhor para voltar. Ou seja, se você acorda com diarreia, dor de garganta ou de barriga e não se sente bem, basta ligar para a empresa para avisar e, quando voltar, entregar esta declaração assinada por você mesmo. É o que eles chamam de autocertificação. Aqui, a sua palavra tem valor. Mas isso só vale para curtos períodos.
Três dias depois do início do meu repouso, a secretária do posto de saúde me ligou para agendar um retorno, nos próximos dias, por telefone. Basicamente, a médica liga para os pacientes, alguns dias depois, para se certificar que o remédio está fazendo efeito, por exemplo. No dia marcado, ela não ligou. Liguei no dia seguinte e, meia hora depois, ela me ligou pedindo mil desculpas pela confusão do dia anterior. Fizemos uma breve consulta pelo telefone e ela me agendou para voltar lá na semana seguinte para vermos o resultado dos últimos exames.
Agora, me digam. Para um sistema público de saúde, uma nota 8 para o atendimento que eu tive é justo, não? Embora nem todos os postos de saúde sejam assim. Sabemos muito bem disso. O último posto de saúde pelo qual passamos era um lixo. Médicos negligentes, enfermeiras mal-humoradas e agendamento muito lento. Aquele não merecia nem nota zero.
Agora vem a parte negativa da coisa. Afastamento por doença muitas vezes não é pago pela empresa! Quando isso acontece, o governo paga um valor para o empregado por semana, mas é bem menor do que o salário mínimo semanal. Felizmente, parece que o banco onde eu trabalho paga o valor do salário integral dentro de um período máximo de ausência. É o que eu vou descobrir quando voltar a trabalhar, na semana que vem.
Em resumo, não brincaram com a minha saúde. Espero que não brinquem com o meu bolso também! Depois eu volto pra contar.

Jornalista, foi repórter e apresentadora de telejornal por oito anos, atuando como editora e editora-chefe nas principais emissoras do país por mais de cinco anos. Jornalista por 15 anos. Atualmente radicada no exterior.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.