8 de agosto de 2022
Adriano de Aquino Colunistas

Abstenção

Imagem: Google Imagens – Diário de Notícias

Abstenção: uma marola que leva o isentão a se imaginar surfando uma onda ética gigante.

No dia seguinte, ao acordar mijado, leva um baita susto.

Nas noites que sucedem à sua inabalável opção ‘ética’, reciclam suas críticas à ‘nova situação’. Contudo, mantendo o vértice da sua opinião: ‘o povo não sabe votar’.

Os que tiverem recursos financeiros fogem para as planícies democráticas.

Porém, devo admitir, há tipos de abstenção que podem ser positivas.

Eu me abstenho de gastar tempo avaliando as marolas para além da linha do horizonte, criadas pelos institutos de pesquisa.

Minha precaução tem sentido. As mais realistas análises sobre a metodologia desses institutos confirmam minha precaução.

Contudo, também devo admitir que há uma intenção objetiva no negócio das pesquisas.

Primeiro objetivo é faturar alto na temporada eleitoral. Quanto mais antecipadas forem as pesquisas, mais lucro as empresas acumulam. O segundo é colher uma boa safra de oportunidades futuras, investindo no candidato que apostou ‘alto’ na vitória, no balcão do mercado eleitoral futuro.

Muitas pessoas estão intrigadas com a vitória esmagadora da ‘abstenção’ nas mais recentes eleições.

Consultei algumas pesquisas prévias nesses locais. Em nenhuma delas a ‘abstenção’- lá longe, além da linha do horizonte- venceria as eleições. Falam por aí que a polarização tem sido o motivo de tantas surpresas, Se isso for um fato, não me surpreende. A ‘mimização’- cultura que deu vida e voz aos isentões – é uma rede de arrasto que amealha cacos no fundo do oceano.

As redes sociais contribuíram para juntar os isolados cacos isentões em entulho opinativo. Com tantos partidos por aí, não me espantarei se um espertalhão profissional vier a pedir registro no TSE do PI/Partido dos Isentões. Votos não faltarão.

Também existe um fator a ser considerado: a opinião de pessoas articuladas(sic) que ‘teorizam’ nas redes sociais sobre um futuro que gostariam de ver concretizado.

Para esses, em clima de polarização, a vitória do opositor ao governo nas pesquisas eleitorais, não só é motivo de comemoração como também um diagnóstico dos motivos que levaram a situação à derrota eleitoral… nas urnas ou melhor, nos caixas das empresas de comunicação.

Nesses casos, de aparente racionalidade, não considero crendice tola, comum aos devaneios éticos dos isentões. É só uma tolice, um desejo pueril, de quem gostaria de ver seu desejo realizado.

Eu também tenho sonhos que gostaria de ver realizado.

Até o momento só falei em sonhos e desejos. Porque, nesses meandros insondáveis se opera a manipulação. Também não fiz nenhuma referência a uma articulação fraudulenta. Até porque não se trata de sonho ou desejo, mas sim um pesadelo recorrente que ronda a sociedade brasileira, intoxicada há décadas pela manipulação da opinião pública, mentira e corrupção.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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