Seis anos de Charlie Hebdo

Às 10:36 GMT de 07 de Janeiro de 2015,foi divulgada a notícia de que um pequeno grupo de terroristas invadiu a sede do Charlie Hebdo.

Às 10:30GMT eu já estava embarcado no avião que me traria de volta ao Rio.

Um atraso – por condições climáticas – de aproximadamente uma hora para decolagem, permitiu que os passageiros embarcados pudessem acessar seus celulares.

Isso me permitiu ter acesso à informação ‘in loco’ sobre o atentado ao Charlie Hebdo que até aquele instante havia registrado 12 mortes.

Às 11:28 GMT, cinco minutos antes do comandante anunciar a autorização para decolagem e pedir para os passageiros desligarem os celulares, a foto que ilustra esse post foi a última imagem que vi da cidade onde passei mais de um mês, comemorei meu aniversário, o Natal e a entrada de um novo ano junto a minha irmã, sobrinhos e amigos.

A notícia desviou minhas divagações sobre a estadia em Paris.

Meus pensamentos tomaram outro rumo.

A França, Paris em particular, são emblemas de conquistas libertárias. Naquela terra, naquela cidade e sobretudo naquela cultura de incontáveis conquistas sociais, onde a indústria de bens se expande do campo objetivo de produção para as áreas do pensamento, da cultura, da arte e dos direitos humanos, a fortuna que mais se destaca aos olhos do viajante é a liberdade individual.

Esse item está diretamente vinculado ao maior orgulho nacional: ‘Le droit du citoyen’.

Ainda que a liberdade seja um conceito sujeito a todo tipo de abordagem e especulações de fundo teórico, na prática, ela se manifesta na sociedade francesa de maneira inequívoca.

Não é a toa que atribui-se aos parisienses a invenção do ‘trottoir’ que na versão popular significa apenas uma boa calçada mas, no sentido atribuído pelos poetas da cidade, é a arte de andar, passear e flanar pelas ruas às três horas da tarde ou da madrugada, sem se sentir ameaçado por hordas bárbaras ou mesmo pelas forças de segurança pública simplesmente porque você é uma pessoa diferente da maioria.

Discutir nos bistrôs, portar publicações radicais, vestir-se como um dândi, um gótico ou um Aiatolá, ou mesmo gritar aos quatro ventos o que pensa, em Paris, é uma atitude tão natural quanto respirar.

Antagonizar o governo, as indústrias, o consumo, as corporações do setor econômico, a imprensa, o ‘pouvoir’ e a hegemonia militar do ocidente é um clássico do ativismo social francês.

Contudo, matar o HUMOR, foco da irônica resistência, atinge a liberdade no seu ventre.

Esse ato deve trazer à tona a irresponsabilidade de uma política de viés aparentemente multicultural e os arroubos de uma militância progressista debiloide em conluio com os ‘isentões’ politicamente corretos do ocidente que apoiam a causa jihadista e atos extremistas que visam restringir, para não dizer exterminar definitivamente, a liberdade.

Saio dessa cidade com uma sensação de tristeza e luto por todos os jornalistas mortos neste ato estúpido de consequências terríveis.

O epitáfio dessa ação pode ser sintetizado numa frase anônima bem ao estilo de maio de 68,poucos anos antes do Charlie Hebdo ressurgir das cinzas do velho HaraKiri Hebdo, extinto por descontentamento de um ministro gaulista: “Um homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é.”

Essa é a questão maior da tenebrosa intolerância do extremismo religioso e a que mais aflige as sociedades livres do Ocidente.

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