30 de maio de 2026
Mary Zaidan

Todo Cambia

Depois de um vendaval de más notícias, Lula respira e vê seu principal adversário ser atropelado pelo tsunami Master

LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva PT Palácio do Planalto no lançamento do Novo Desenrola Brasil Metropoles 8

Dita e redita, a frase do mineiro udenista e golpista Magalhães Pinto (1909-1996) – “Política é como nuvem; você olha está de um jeito, olha de novo e ela já mudou” – continua vivíssima, embora longe da calmaria que a contemplação do céu pressupõe. Ao contrário. Muitas das mutações passaram a se assemelhar a furacões, a exemplo das investigações do escândalo do Banco Master, e tempestades, como as que atingiram o presidente Lula há exatos 10 dias.

Lula amargou duas derrotas difíceis de deglutir – a rejeição quase inédita de um indicado à Suprema Corte e a derrubada de seu veto à lei da dosimetria, uma espécie de anistia disfarçada, que reduz drasticamente a pena para golpistas. Diante dos reveses, não foram poucos os que apontaram a antecipação do fim do governo e a consequente perda de competitividade do petista.

Animada, a oposição, tendo Flávio Bolsonaro à frente, se entregou a comemorações calorosas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tido como responsável pela reprovação de Jorge Messias ao STF e pela queda do veto presidencial à lei de constitucionalidade duvidosa, feita sob medida para reduzir a pena do ex Jair Bolsonaro. Em vez de 27 anos e cinco meses de cadeia, ele estará livre em pouco mais de dois anos. “Foi o melhor presente”, disse Flávio, que completou 45 anos no dia da derrubada do veto.

Naquela semana, uma reviravolta era inimaginável. Mas os que alardeavam que o café frio já estava sendo servido no Planalto foram pegos no contrapé já na segunda-feira seguinte com um inusitado convite de Donald Trump para que Lula fosse encontrá-lo na Casa Branca. Ninguém, nem os melhores analistas, conseguiam – e ainda não conseguem – explicar o gesto trumpista depois de tantas críticas feitas a ele pelo presidente brasileiro.

O que se via era temor do lado petista e torcida dos opositores para que Trump desancasse Lula, como fez com os presidentes da Ucrânia Volodymyr Zelenski e da África do Sul Cyril Ramaphosa. Nas redes sociais, bolsonaristas, sob a batuta do deputado cassado e autoexilado Eduardo Bolsonaro, tentavam justificar o encontro com ironia e teses surreais.

Na quinta-feira, depois das mais de três horas de conversa entre os dois, incluindo tapete vermelho e almoço oferecido a Lula na Casa Branca, essa turma praticamente emudeceu. Em reação tímida, o Zero Três até publicou mensagem duvidando do “sucesso” do encontro, contestando a opinião do próprio Trump, que teceu elogios ao petista.

A zonzeira bolsonarista não se deveu apenas à repercussão positiva da agenda, das fotos e do clima amigável, mas em especial por Trump dizer que Lula é “dinâmico”, dificultando que a campanha de Flávio questione a vitalidade de Lula devido à idade. Até Alcolumbre, que já tinha abandonado Lula, pediu audiência com o presidente, tentando se reaproximar.

Para o bolsonarismo, o dissabor com a visita foi fichinha perto do tsunami provocado pela 5ª fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que detonou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro.

As investigações apontam que o parlamentar colocou o seu mandato a serviço do dono do Master, Daniel Vorcaro. Receberia mesada de R$ 300 a R$ 500 mil do ex-banqueiro, que também teria custeado viagens, hotéis de luxo e restaurantes estrelados. Ciro era um dos cotados para ser vice de Flávio – “tem um perfil ideal”, afirmava o senador. Agora, o Zero Um tenta se descolar da encrenca, jogando o aliado aos leões, Sem corar, tem dito que os elogios feitos a Ciro teriam sido por mera “cortesia”.

Se nos últimos dias de abril Lula parecia ter se afogado, a semana passada veio como uma espécie de bonança para ele e de severa turbulência para o seu principal adversário. Como na música do chileno Júlio Numhauser, imortalizada por Mercedes Sosa, “todo cambia”. E não há como prever o movimento da biruta, até porque, segundo a última pesquisa Quaest, os dois – Lula e o sobrenome Bolsonaro – são os preferidos, mas quatro em cada 10 eleitores podem mudar de opinião antes do voto. Até lá, as nuvens vão continuar carregadas.

Mary Zaidan

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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