24 de abril de 2024
Colunistas Walter Navarro

Via Margutta, 51, Roma

Repito: toda tragédia é uma piada, depende do lado em que estamos, concordam?
Pelo segundo Carnaval consecutivo recebi um vídeo acompanhado deste texto: “Se você acha que sua vida está ruim, pensem no Seu Adelino: casado, bateu o carro, o carro pegou fogo, teve perda total, estava bêbado, a Polícia chegou, foi preso, multado em R$ 5.998,00, perdeu a CNH, estava indo pro motel com uma morena chamada Rogério e o pior de tudo: foi filmado, que noite! Sim! Leram certo: o nome da moça era Rogério…
Adoro algumas expressões populares, engraçadíssimas e terríveis. De tão usadas, “batidas”, acabam perdendo o sentido e o “drama” original. Por exemplo: “Não há cristão que aguente”.
Imaginem uma situação que nem um cristão aguenta. Isso, sem esquecermos que, quando os cristãos surgiram, cresceram e se multiplicaram, a começar pelo próprio Cristo, sofreram toda sorte de suplícios e calvários: eram perseguidos, injuriados, presos, açoitados, torturados, esquartejados, degolados e crucificados. Com muita sorte, ressuscitavam ao terceiro dia.
É o mesmo que “pegar alguém pra Cristo”, como algumas Escolas de Samba e “artistas” andam fazendo impunemente.
Isso, quando os mesmos cristãos não “abriam” os jogos do Coliseu Romano, como comida de leão ou para os gladiadores esquentarem os tamborins.
Outras expressões que venero; se levadas ao pé da letra e se imaginarmos a situação peculiar: “A pessoa acordou com uma ressaca de cuspir algodão”. Dá até sede…
“O cara estava mais perdido que cego em tiroteio”. Coisa mais desagradável! E esta: “Estava mais perdida que calcinha em suruba…”. Tem situação pior que a da calcinha: a do português num bacanal, mas essa eu já disse que não posso contar aqui. Procurem no Google.
Conheço outra máxima sobre chuva e uma “sacada” do saudoso Bussunda sobre enchentes, que não vou repetir por respeito aos mortos de mais uma tragédia de verão anunciada, desta feita em São Sebastião, São Paulo. E a Natureza não é a única culpada… Tem o Bolsonaro também, lembram dele?
O poeta Vinicius de Moraes era aplaudido ao cantar que “tristeza não tem fim, felicidade, sim”. Para horror de minha mãe, meu pai, muito “otimista”, rimava com um ditado recorrente: “Desgraça pouca é bobagem!”.
Minha mãe, até hoje, considera isso uma heresia; no mínimo, uma ingratidão para com Deus. Tento pensar como ela, mas tendo a concordar com meu pai.
Vejam vocês como o mundo está derretendo; se engolindo, se explodindo, se matando e o Brasil, em particular, entregue a este sádico encosto, o Caboclo Mamador. É desgraça que não acaba mais, uma atrás da outra. Desgraça não, perdão, tragédia!
Basta ligar a TV ou abrir um jornal. Não faço isso há mais de cinco anos e, mesmo assim, não escapo do Fim do Mundo, diariamente.
Basta pegar o telefone e consultar o WhatsApp. É do Seu Adelino para cima. A gente recebe um vídeo picante de carnaval, acha que vai ver mulher pelada e é um travesti balançando suas vergonhas, sem vergonha.
Hoje recebi mais dois vídeos “de fazer Deus perder a fé”, outra expressão que idolatro. No primeiro, o prefeito do Rio, Eduardo Paes pulando o Carnaval com o Sérgio Cabral, pode? Pior, só o segundo vídeo, com Gleisi Hoffmann dando beijos “Cadê Petróleo”, no Lindbergh Farias, em pleno Sambódromo. É de fazer Satanás ajoelhar e rezar.
Por estas e muitas outras, semana passada, em vez de pegar meu celular, liguei a TV, não noticiário, óbvio, mas no Telecine Cult, da Sky que, há muito, tem quase nada de Cult, muito menos de Cultura.
Eram “7h da madrugada” e estava terminando um filme. Apertei um botão azul, para ver qual era o próximo e dei muita sorte porque felicidade pouca é bobagem.
Em meia hora ia começar um de meus filmes de cabeceira, “A Princesa e o Plebeu”, (1953), de William Wyler, com Gregory Peck e Audrey Hepburn; todos no auge do talento e da beleza, no caso do casal.
Deu até tempo de lavar umas vasilhas “de ontem”, preparar a mesa e o primeiro drinque, minto, o café, para mim e minha mãe, que ainda dormia.
Não à toa confundo William Wyler com Billy Wilder, dois mestres do Cinema americano. O primeiro nasceu na Alsácia, França, quando a Alsácia era alemã. O segundo era judeu da Polônia, morando em Berlim, na Alemanha de Hitler; o que dispensa mais comentários para entender como e de onde vêm a força e a beleza do cinema americano.
Wyler & Wilder têm mais em comum: Audrey Hepburn, que também nasceu na Europa, Bélgica e sofreu na Segunda Guerra Mundial. Um ano depois de ser descoberta pelo mundo, já ganhando um Oscar, com “A Princesa e o Plebeu”, de Wyler, Audrey conseguiu brilhar ainda mais, com e como “Sabrina”, de Wilder.
Prefiro “Sabrina” porque minha atriz favorita contracena com meu ator favorito, Humphrey Bogart.
Pausa para dizer que “A Princesa e o Plebeu” é mais uma tradução brasileira e ridícula, para o original em inglês, “Roman Holiday” que, literalmente, quer dizer dia de folga, feriado romano. Pra mim, “Escapada Romana”.
São duas comédias românticas? Sim e não. Sem microscópio, percebemos, nos dois filmes, um capítulo da condição humana: ser ou não ser, no caso, livre. Voltem ao Google.
No filme de Wyler, a princesa Ann quer ser uma plebéia, depois de apaixonar-se por um reles jornalista, em Roma. No filme de Wilder, Sabrina, a filha do motorista vira, “princesa”, depois de um banho de Paris e de casar-se com o milionário para quem seu pai trabalhava. Final feliz? Vejam os filmes e escolham porque é muito difícil saber até quando nós mesmos somos felizes.
Dois filmes deliciosos com uma grande vantagem para “Roman Holiday”, filmado em Roma. “Sabrina” é 100% Estados Unidos, com lindos cenários, incluindo Nova York e uma pitada de Paris, mas uma Paris falsa, de estúdio. E isso faz toda a diferença.
Paris é Paris e rima com onde fui feliz. Mas Roma é Roma, onde, desde 1º de janeiro de 2023, quero passar um período sabático de, digamos, uns 29 anos, ou seja, o resto da vida, com muito otimismo. Só me falta um milhão de euros.
Paris é Paris, mas não tem as cores de Roma, cores que estão até mesmo no preto & branco de “Roman Holiday” e de “La Dolce Vita” (1960), de Fellini. Cores de verdade que também deixam Roma mais linda num filme bem mais recente, “A Grande Beleza” (2013), de Paolo Sorrentino. São estes três filmes, e não todos os caminhos, que levam a Roma e ainda provam que ela é Eterna.
Roma, a Cidade Eterna! Confesso que, como cristão, o lindo Coliseu não me seduz, só de longe. O mesmo vale para o Forum e outras lembranças da Roma Antiga e seus Césares. A grega Atenas também. Vou esperar as reformas. De ruínas bastam-me Barbacena e meu apartamento em Belo Horizonte.
Em Roma, como os romanos, prefiro clichês mais palpáveis como a Fontana di Trevi e a Piazza Navona, apesar dos farofeiros e ímpios turistas.
Prefiro a Roma – de Gregory Peck, Audrey Hepburn, Marcello Mastroianni e Anita Ekberg – que ainda resiste, com uma grande beleza.
Além da direção de William Wyler, “Roman Holiday” é bom demais porque o roteiro leva a grife de ninguém menos que Dalton Trumbo, que foi obrigado a usar um pseudônimo, neste e em vários filmes, porque era perseguido pelo Macarthismo que caçava comunistas nos anos 50 dos Estados Unidos.
Deve ser horrível morar num país onde não se pode assinar o próprio trabalho por perseguição política. O filme “Trumbo” (2015) mostra e conta muito mais.
Mesmo na lama, Trumbo escreveu um conto de fadas, sem fodas, claro. Sonhou e criou uma história onde uma princesa, cansada da formalidade idiota de velhos chatos, esnobes e ricos, trocou a vida de luxo por um único dia feliz.
Sei que meu sonho é mais inútil que o Papa, a ONU e o Exército brasileiro juntos, mas vou tentar passar, pelo menos uma tarde em Roma, com alguns euros para o vinho e este endereço na cabeça: Via Margutta, 51.

ps: Ah! Rua Margutta, 51, em Roma, ainda existe e é onde fica o apartamento minúsculo do “jornalista” Gregory Peck que, num feriado romano, teve seu dia de príncipe com a plebeia Audrey Hepburn. E em P&B, onde nunca foram felizes para sempre.

Walter Navarro, Roma, 23 de Fevereiro de 2023.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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