5 de março de 2024
Walter Navarro

Um sábado para Rambo & Orquestra


Tive uma sexta-feira punk.
E porque fui para a lama e para a lona, nocauteado, meu gigantesco inconsciente tomou uma surra do Stallone.
Desmaiei, acordei tonto e o jeito foi passar a manhã e a tarde de sábado assistindo a série Rambo!
Os três primeiros filmes. Um delírio!
Nunca pensei ser capaz disso. Santa Decadência, Batman!
Eu começava a rir e acabava chorando.
No primeiro filme, Rambo volta para os Estados Unidos e, vítima da sociedade, nada alternativa, mata todo mundo.
No segundo filme, Rambo, vítima da sociedade, saí da prisão, depois de quebrar muita pedra e volta ao Vietnã para resgatar soldados presos durante a famosa guerra. Aproveita, para matar todo mundo.
No terceiro, ele está quase um monge, num mosteiro budista, na Tailândia, “procurando a Paz”, quando é obrigado a ir ao Afeganistão, libertar seu amigo sequestrado. De quebra, mata todo mundo.
Que lição epistemológica, hermenêutica, filosófica, tirei de tudo isso?
Se beber, não ligue a TV!
Melhor fazer tricô, bonsai ou pintura em porcelana.
Aposto que fizeram estes filmes, há quase 40 anos, só para que me irritassem, em 2019.
Na única cena romântica, a moça acaba metralhada…
E não tem uma mulher pelada!
O engraçado é que a vida parece um filme do Rambo. O cenário é igualzinho!
Nada faz sentido, acaba todo mundo morrendo e o Rambo, com caras, músculos e boca torta, acaba sozinho. O que geralmente ocorre com quem procura guerra, paz, sombra e água fresca.
Depois, mesmo escutando muito Stones, os tiros continuam me metralhando.
Maravilha! E eu perdendo tempo com Woody Allen e Visconti!
Decidido! Se um dia eu crescer, quero ser Rambo. Mas sem caras e bocas tortas, sem músculos e diálogos profundos, sem Stallone. Só sair matando todo mundo.
Mentira, só mato baratas, formigas e saudades.
E estão pensando que o sábado acabou?
Nada!
Ainda tenho um pão dormido e um pouco de manteiga para lhe barrar por cima, como queria Eça.
Sobrou também, entre brumas e Brahmas, um pouco de Serge Gainsbourg cantando para uma linda afogada:
“Você é apenas um casco (não de cerveja, mas de navio). Cachorra que morreu na praia. Mesmo assim, continuo teu escravo, mergulhado num riacho (ou num copo de Pepsi). Quando acabam as lembranças e o oceano do esquecimento – quebrando corações e mentes – nos reúne, enfim, para sempre”.
Meio tipo Leonardo Di Caprio em fim de Titanic. Todos os bobos morrem afogados ou de amor, às vezes, das duas coisas. Ainda bem que iceberg rima com whisky.
PS: Agora, preciso de um pouco de Charles Bronson, Chuck Norris ou Steven Seagal, para ver o que é bom para tosse.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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