28 de fevereiro de 2024
Colunistas Walter Navarro

Terça feira 13

Antes da fraude, eu achava que Universos Paralelos fossem coisas de cinema e de maconheiro; histórias em quadrinhos, ficção científica, fantasia.

Mas o que são Universos Paralelos? Versões de “um mundo onde nossas decisões diferiram das que tivemos aqui, em nossa realidade”.

É como entrar num sonho, realizar um sonho de Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada. Lá tem tudo. É outra civilização. Tem telefone automático. Tem alcaloide à vontade. Tem prostitutas bonitas para a gente namorar. Lá sou amigo do rei. Terei a mulher que eu quero, na cama que escolherei.

É como aquela música do Lobão: Tá a fim de arrebentar no Universo Paralelo? Você topou e me propôs agilizar. Chamar um avião pra se mandar de vez pro tal do Universo Paralelo. E nada ficou com início, meio e fim. E o mundo parou, descontinuou, mudou. E então, como foi? Legal? Que bom! Como eu gosto de te ver assim, feliz.

Sacaram? Universo Paralelo é algo como o supermercado Pão de Açúcar: lugar de gente feliz.

“A ideia é realmente fascinante e tentadora: em outro universo semelhante ao nosso, uma versão de nós mesmos vive uma vida diferente da nossa. Essa versão conseguiu o emprego dos sonhos (que infelizmente não pudemos obter aqui), tem outra família, adotou um gato gente boa ou um cachorro comportado”.

Um lugar onde o Brasil ganha da Croácia todo dia. “O problema é que, na maioria das vezes, só podemos escolher uma das opções que a vida oferece o tempo todo”.

Por exemplo: Você quer o Brasil que passa na televisão que só mostra transição, como se ela fosse acontecer? O Brasil dos jornais que só falam da Seleção, da Copa do Mundo?

Ou você quer o Brasil dos quartéis, das manifestações e do Whatsapp, dia, noite e madrugada?

Qual é o Brasil de verdade? O do Bandido ou o do Mocinho?

No do Bandido, aparentemente, muito aparentemente, tudo vai bem, na mais santa paz. Parece uma tela de Renoir, tudo bonitinho, funcionando, ativo e operante.

No do Mocinho, trevas, dúvidas, suor, lágrimas e sangue. Ninguém sabe quando chegarão, quando voltarão a Lei e a Ordem. Parece uma tela de van Gogh, de Picasso, de Munch; um tormento, tudo fora de lugar, um grito de desespero.

Estranhamente, prefiro os mundos de Munch, de Picasso e de van Gogh. São reais.

Só faltava adivinhar o dia quando tudo vai acontecer contra tudo isso que está aí.

Aí, num Universo Paralelo, estou na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de janeiro, sonhando que era dezembro. Ops! Mas estamos em dezembro! Mas não de 2018 ou 2022.

Era 13 de dezembro de 1968. 54 anos atrás, quando foi baixado o Ato Institucional nº 5. Sim, o famoso AI-5, que vigorou até dezembro de 1978.

Que sonho doido, meu! Vi o general Costa e Silva de caneta na mão, dando poder de exceção para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime.

No Brasil e no mundo, contestação da política e dos costumes.

Na França, Maio de 68. Aqui, os jovens também queriam uma tal de liberdade, gritando “é proibido proibir”.

Do outro lado, a “linha dura” providenciava instrumentos mais sofisticados e planejava ações mais rigorosas.

A Igreja defendia os direitos humanos e lideranças políticas cassadas continuavam a se associar visando o retorno à política nacional e ao combate à ditadura.

Greves sinalizavam que medidas mais enérgicas deveriam ser tomadas para controlar as manifestações de descontentamento.

Para o Exército, o governo precisava ser mais enérgico no combate a “idéias subversivas, porque havia um processo bem adiantado de guerra revolucionária” liderado pelos comunistas.

A gota d’água foi um deputado apelando para que o povo não participasse dos desfiles militares do Sete de Setembro e as moças, “ardentes de liberdade”, se recusassem a sair com oficiais.

Depois de mil “ofensas e provocações irresponsáveis e intoleráveis”, foi baixado o AI-5, que autorizava o Presidente da República, em caráter excepcional e, portanto, sem apreciação judicial, a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas-corpus.

Tudo para a obra de reconstrução econômica, financeira e moral do país. A lista de cassações aumentou, atingindo não só parlamentares, mas até ministros do Supremo Tribunal Federal.

Aí, acordei. Ufa! Ainda bem que, como naquele filme, o pesadelo “Foi Apenas um Sonho”.

1968 é o “ano que não acabou”. 2022 está acabando, em plena democracia e não precisamos de AI-5.

Não vemos poderes de exceção e punições arbitrárias. Nada de cassações, nem prisões de deputados. Não há mais censura.

Não temos inimigos, nem precisamos contestar a política e os costumes. Muito menos gritar liberdade e “é proibido proibir”.

Instrumentos sofisticados e ações rigorosas, sem ditadura, greves e manifestações de descontentamento?

Idéias subversivas e guerra revolucionária liderada pelos comunistas. Onde?

Os brasileiros estão nem aí para bandeira, hino nacional e Sete de Setembro. As moças, “ardentes de liberdade”, só pensam naquilo, “fazer o L…”. Danadinhas!

O Brasil está uma maravilha! Tivemos eleições limpas e não precisamos decretar o recesso do Congresso Nacional, sempre vigilante e ao lado do povo.

Para que intervir nos estados e municípios; cassar mandatos, diplomação e posse; caçar Ladrão e suspender, por mil anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; decretar o confisco de bens considerados ilícitos; e suspender a garantia do habeas-corpus?

Não há nem sombra de ameaça à vida econômica, financeira e moral do país. Porque, garantindo tudo isso, está nosso Supremo Tribunal Federal.

PS: Que alívio, Alírio! Deve ser horrível, um verdadeiro delírio viver num Universo, ou na Croácia, onde um Ladrão sai da cadeia para a cadeira de Presidente.

Walter Navarro, Zagreb, 8 de Dezembro de 2022

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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