23 de maio de 2022
Walter Navarro

Que reste-t'il de nos amours?


Gosto muito do Nelson Motta. Um cara sempre alto astral, inteligente, culto, bem informado. Escreve muito bem, compõe; sempre foi um agitador cultural, antenado e, sobretudo, teve e tem a sorte de ser íntimo de grandes personagens, grandes nomes da melhor cultura brasileira, como Nelson Rodrigues, Tim Maia, João Gilberto e outros imortais.
O maior defeito de Nelson Motta é exatamente este gentileza ampla, geral e irrestrita para com todos. Nunca vi, ouvi ou li Nelson Motta falar mal de alguém.
Para ele, tudo e todos são lindos, maravilhosos.
Desconfio de quem elogia todo mundo. Mesmo porque é impossível gostar de coisas complemente opostas, como na exuberante música brasileira que já foi e hoje é esta porcaria generalizada.
Comprovei minha teoria, domingo, na mais recente ótima ideia de Nelson, seu programa de “memórias”, na Globonews, “Em Casa com Nelson Motta”.
Testemunha colocar de grandes histórias, com grandes figuras, toda semana, Nelson elege um nome para homenagear.
Os programas, claro, ainda que curtos, tipo meia hora, são ótimos, recheados por histórias suculentas, casos, anedotas, curiosidades; um bate papo, realmente, bem caseiro.
Esta semana, a escolhida, com todo o merecimento, foi Maria Bethânia.
E foi contando um capítulo com Bethânia que comprovei uma “falha” horrível, mas perdoável, do cordial Nelson Motta.
Ele foi, pela primeira vez, falar mal de uma música e, por vulgar falta de conhecimento, cometeu enorme gafe, falou gigantesca besteira.
Bethânia pediu a Nelson Motta uma versão brasileira da música “I Wish You Love”, um dos clássicos de Frank Sinatra.
Bethânia cantarolou, ao telefone, a versão de Sinatra e Nelson comentou: “Mas, Bethânia, esta música é a versão, em inglês, daquela outra, francesa… (Que reste-t’il de nos amours?)”.
Pausa para uma curiosidade, lembrada agora. Um dos maiores sucessos de mestre Sinatra, “My Way”, também, originalmente, é francesa…
Pois bem, o pecado capital de Nelson Motta veio a seguir. Ele disse que a genialidade de Bethânia foi pedir uma visão brasileira da versão de Sinatra, em inglês, que tem nada a ver com a letra original francesa, “uma bobagem, uma letra bobinha, falando de pôr do sol, etc…”.
Outra pausa, para dizer que, “Que reste-t’il de nos amours?” é de Charles Trenet (1913-2001), um monumento da música francesa. Um cara que, até o final da vida, aos 87 anos, só cantava a boa e velha França que, há muito, acabou. Uma França poética, romântica, feliz, amorosa como um perfume, um vinho, um queijo com a mulher amada.
OK! A letra de “I Wish You Love” é linda e nobre. Um cara abandonado, desejando à amada tudo de bom; que ela tenha e viva um lindo novo amor, mesmo que com outro. Ou seja, amor de verdade. Quem ama deixa livre para amar, não é mesmo? Por mais duro e difícil que seja.
O erro fatal e imperdoável de Nelson Motta foi chamar a letra francesa de bobinha, de besteira, bobagem.
Tenho certeza que Nelson Motta não sabe, não entende, não fala, não lê francês.
Ele esqueceu, por exemplo, que seu ídolo máximo, João Gilberto, gravou “Que reste-t’il de nos amours?”, num francês angelical e impecável.
Não cometerei aqui o crime de traduzir “Que reste-t’il de nos amours?”. A letra é enorme e, ao contrário do que disse Nelson, é repleta de poesia.
Todavia, dou uns exemplos, uns versos, e vocês podem julgar.
É uma enorme declaração de amor ao amor, às lembranças, aos momentos felizes do passado que não voltam, daí a magia.
“Esta noite, o vento que bate à porta me fala dos amores mortos. Penso nos tempos imemoriais, longínquos e me pergunto, o que restou de nossos amores? O que restou dos belos dias? Uma velha foto de minha juventude. O que restou dos bilhetinhos, dos meses de abril, dos encontros? Uma lembrança que me persegue sem cessar, felicidade murcha, cabelos ao vento, beijos roubados, sonhos reais. O que resta de tudo isso, diga-me? Uma pequena cidade, um sino, uma paisagem bem escondida e numa nuvem, o querido rosto do meu passado…”.
Esta letra é boba, Nelson?
Bobo é você que entende de França como o Macron entende de Amazônia. Tolinho é você que não tem saudade da delicadeza perdida. Bobo e tolo sou eu em tentar explicar o óbvio. Mas João Gilberto entendeu…
ps: “Mon cher” Nelson, cuidado para não transformar “La Vie en Rose” em “La Vie en Close”.
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Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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