21 de abril de 2024
Colunistas Walter Navarro

O jardineiro fiel

Dia 16 de dezembro, plantei mais uma árvore. Minha “mão é boa”, mas a muda de cerejeira rosa é frágil. Jardim é selva; coisa muito perigosa, cheia de areia movediça; formigas, escorpiões e hienas. Na Amazônia ainda temos leões, girafas e elefantes.

Cavei, com uma pequena enxada, um buraco de 60 cm. Quase saiu no Japão. Tive que forrar o orifício com a mesma terra que tirei. Rezei e agora é esperar o que vier ou não vier.

Com esta pequena tarefa doméstica e jardineira, concluí que nunca serei um bom assassino ou um “cleaner” do tipo Mr. Wolf, no filme “Pulp Fiction”. Não tenho força, nem saúde.

“Cleaner”, como entrega o nome, para quem fala um pouco de javanês, é aquele cara que limpa a cena do crime, para onde, suja ou limpa, alguns ladrões costumam voltar.

Na otimista sabedoria popular, dizem que um homem, para marcar sua passagem nesta louca vida louca sem sentido, deve escrever um livro, fazer um filho e plantar uma árvore.

Já escrevi muito. Publiquei três livros; tenho dois prontos, nas gavetas do notebook e material para, no mínimo, outros 69.

Já quis muito, mas não tenho filhos, por enquanto. Ainda posso fazer. Só falta a mãe. Não estou muito preocupado porque sempre cito Machado de Assis, “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Constatação cada vez mais moderna e eterna.

Árvores; já plantei mudas e muitas, até perder a conta e perder de vista. Meu orgulho maior, mais que os livros. E mais importante: nunca cortei nenhuma.
Plantar a mandioca, afogar o ganso, assar a batata ou queimar a rosca!

Voltando à confissão e ao lamento de que nunca serei um bom assassino, é muito difícil cavar. Se já é complicado e penoso furar um buraco para pequena muda, imaginem para um corpo, mesmo que nele falte um dedo ou tenha uma perna curta.

Adoro aquelas cenas de filmes onde o cara enterra o presunto no deserto, no jardim, no porão, na floresta, etc. Mesmo esquartejando, eu não conseguiria. Pelo menos nas duas horas do filme ou em apenas uma noite.

O lugar mais indicado a desovar alguém é uma siderúrgica. Visitei uma e logo concluí. Você joga o corpo no carrinho do minério e lá no alto forno, tudo que é sólido desmancha; não no ar, mas na lava. A Usiminas resolveria vários dos meus problemas.

Outra dica que peguei em filmes é ter uma funerária com crematório. Recomendo a série mexicana, “Sr. Ávila” ou a melhor da Netflix, “Ozark”.

Já contei que, em Paris, duro como um cadáver; fui coveiro por um dia? Coveiro mais ou menos. Meu trabalho era limpar túmulos… Era um inverno de cão polar. Eu descia com macacão e máscara que pareciam um escafandro. Jogava um ácido nas paredes das covas… “Travail pénible”. Não aguentei o batente, mas aprendi muito e mais.

Tudo isso, comecei a escrever dia 17 de dezembro de 2022. Hoje estamos no dia 5 de janeiro de 2023. A pausa involuntária foi porque, desde o dia 31 de dezembro, eu estava tipo na Libéria ou Chipre. Mas voltei.

Voltei e quero retornar ao assunto principal, o tema de hoje, que vai muito além do jardim.

Plantei a delicada, linda e promissora cerejeira, torcendo para que ela vingasse e que não fosse devorada pelos minúsculos monstros da grama.
Porque, vocês sabem; a vida não é justa.

O jardineiro leal pode, com todo carinho e esmero, plantar a mudinha em solo duro e infértil, na terra arrasada; regar, orar e vigiar, todos os dias. Mas…
Mesmo quando plantamos algo, com as próprias mãos, contando com sol e chuva, na medida certa; existe a possibilidade de alguém, acidentalmente ou de propósito, com inveja; pisar e esmagar o que foi plantado com tanto cuidado e amor.

Sim, é Selva! No meu caso, as folhas foram atacadas, mas o caule está lá, sempre vulnerável, mas firme e forte. E na base, apareceu até um novo broto. Se eu continuar regando e cuidando, ela vai resistir; crescer e, em quatro anos, frondosa, dará as primeiras flores.

PS: Sim, o muro é alto, eles são muitos, mas não sabem voar.

Walter Navarro, Nárnia, 17 de dezembro de 2022 e 5 de janeiro de 2023.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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