29 de maio de 2024
Walter Navarro

Ipatinga, mon amour


O mecenato é um estímulo aos artistas. “E$tímulo”!
A palavra nasceu de Caius Clinius Maecenas, político romano, ministro e conselheiro do imperador. Mecenas foi incumbido de financiar a produção artística e literária de vários nomes da cultura romana, como os poetas Virgílio, Horácio e Ovídio, bem como o historiador Tito Lívio. Outras boas línguas dizem que Mecenas abriu sua casa aos artistas e assim, seu nome virou sinônimo de protetor das artes.
Guardadas as proporções e a modéstia, sinto-me um Virgílio, Horácio, Ovídio, Michelangelo, Da Vinci, Boticelli, Rafael, Bach, Mozart; todos aditivados por imperadores, papas, príncipes e reis.
No Século 17, surgem os primeiro museus, com as doações de coleções particulares. Bem mais tarde, no Século 19, surgiram os mecenas bem dotados de  grandes fortunas oriundas do “pobre” capitalismo, tão criticado. Guggenheim, Whitney, Rockfeller e Ford investiram milhões no incentivo cultural, criando fundações que existem até os dias atuais.
Agora, como jornalista, estou me sentindo, de novo, um Michelangelo criando a Capela Sistina, um Goya a serviço da família real espanhola.
Um Beethoven nada surdo para a necessidade de vender seu peixe: “Eu amo uma vida independente, e isso eu não posso ter sem um pequeno salário”.
Um Shakespeare que levava “dolce vita” com a renda que recebia do seu trabalho como ator e dramaturgo.
Sinto-me um privilegiado. “Culpa” da Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation, com seu 1º. Prêmio Nippon de Jornalismo”.
Daí e então, em vez de “Hiroshima, mon amour”, “Ipatinga, mon amour”. Ipatinga, Usiminas, Minas, Brasil, Japão.
60 anos de Usiminas!
E lá vem minha impressão sobre o tema e toneladas de inspiração.
Confesso que nunca tive vontade de conhecer Ipatinga. Não gosto do nome, me lembra calor, forno, seca, sertão, cactos, caatinga, catinga e caxinguelê que eu sempre falei “catinguelê”.
A cisma boba caiu assim que conheci a cidade, no início dos anos 2000. Participei de uma exposição coletiva de arte, exatamente no belo Centro Cultural Usiminas. Tomei um susto com a beleza verde da cidade. Nunca tinha visto aquilo no Brasil. Nunca vi.
Mais tarde soube que o aquilo era “coisa de japonês da Usiminas” e de Burle Marx! Claro! Estava explicado.
Onde fica Ipatinga? Ao lado da Usiminas, kkkkkkkkkkkkkkkkk!
Sério, poucas cidades têm tanto verde em jardins tão bonitos e bem cuidados. Tinha que ser coisa de valores diferentes, de gente inteligente, de japonês. Brasileiro não valoriza; destrói a natureza, o patrimônio, mas felizmente, devo mudar de assunto. O que interessa é o aço verde.
Tecnologia, competência, seriedade japonesas, pronto. Uma lição de anatomia econômica, política, social e cultural.
O lado mecenas da Nippon vai me dar uma viagem ao Japão! Espero!
Não à toa Gilberto Gil versou: “Do Japão quero uma máquina de filmar sonhos…”. Se um dia essa tecnologia for possível, certamente virá do honorável Japão “san”, que já faz o futuro na robótica.
“Do Japão, quero uma máquina de filmar sonhos; do Japão quero também um trem-bala-de-coco; uma gueixa …”.
E a Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation ainda tem uma das minhas palavras favoritas em inglês: “steel”. Gosto também de “still”,”book”, “ice silence”, “supplies”, “ashtray”, “handkerchief”.
Minhas palavras favoritas em japonês? Logo eu, “japonês de Pequim”?
“Gueixa”, kkkkkkkkk! Mitsubish, Toyota, Sony, tatame, Tóquio, cereja. Fuji, Fujiyama, Fujimoto, Sanyo, tempura, yakisoba, gyosa, Susuki, Honda, Nissan, Hitachi, Toshiba, Kenzo, Yamamoto, Nagasaki, Osaka e claro, yen! Muitos ienes!
Até o canibal Sagawa e Mishima, com seu “seppuku”, são muito cinematográficos.
Tudo que o japonês faz, faz direito. Tudo que o Brasil faz não funciona, quando funciona, funciona errado. Daí, este milagre chamado Usiminas.
Menos de 20 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, que arrasou suas grandes cidades, o Japão inventou o trem bala, que nunca sofreu ou causou um só acidente. Trem que só chegou à Europa bem depois. O Brasil, continental, acabou com os poucos trens e estradas de ferro que tinha.
Pode-se medir um país pela quantidade de prêmios Nobel que ganha. O Brasil tem nenhum, mas, até 2016, o Japão tinha 27.
Lembro-me que, depois da tragédia nuclear, com tsunami e maremoto, em Fukushima, 2011, os japoneses reconstruíram uma super estrada em dois meses. À mesma época, caiu uma ponte vagabunda em Goiás, que só foi refeita seis meses depois.
Daí aquela piada que faz chorar:
“Um político havia prometido construir uma ponte e para isso convocou três empreiteiros: um japonês, um americano e um brasileiro.
– Faço por R$ 3 milhões, disse o japonês. Um pela mão de obra, um pelo material e um para meu lucro.
– Faço por R$ 6 milhões, propôs o americano. Dois pela mão de obra, dois pelo material e dois para mim!
– Faço por R$ 9 milhões, disse o brasileiro.
– Nove milhões? Espantou-se o político. Por que esse valor tão alto?
E o brasileiro:
– Três para mim, três para você e três para o japonês fazer a obra.
– Negócio fechado! Responde o político”.
No Japão, corruptos, quando não se suicidam, são presos e desonrados, no Brasil…
O Japão – um país de papel, bambu e aço – é único e um exemplo para o mundo. Deveria encher o Brasil de Ipatingas e Usiminas, kkkkkkkkkk!
Assim como Israel tira água potável do deserto e do mar, o Japão, tira energia das algas. Quem não tem terra, caça com mar. Não tem metal, come com dois pauzinhos. Não tem boi, come peixe. A necessidade é a mãe da criatividade e do trabalho. Faz das tripas, coração e sem haraquiri! Com um território minúsculo, é das maiores economias do mundo, como a Alemanha. E o Brasil, gigante adormecido?
Muita gente brinca que o Brasil deveria ter sido colonizado pelos ingleses, franceses, holandeses. E se tivesse sido pelo Japão? Basta ver o que os imigrantes japoneses e seus descendentes fizeram e fazem no Brasil ainda hoje!
O Japão tem força e delicadeza. Que outro país no mundo faria um filme, como fez o japonês Yasujirô Ozu, com o título “O Sabor do Chá Verde sobre o Arroz” (1952)? O nome do filme já é uma filosofia, um comportamento, poesia.
Sou um francófilo. Meu amor por Paris começou quando, há séculos, em Campinas (SP), assisti ao filme “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups), 1959, de François Truffaut.
Já meu tesão pelo Japão tem dois filmes: “O Império dos Sentidos” (1976), de Nagisa Oshima, que vi pouco depois e outro que adorei, muito depois, “A Mulher da Areia” (Suna no Onna), 1964, dirigido por Hiroshi Teshigahara.
Ah! Teve também a deliciosa série de TV, “Shogun” (1980).
Final e muito mais recentemente, o filme onde Tóquio me seduziu para sempre é  “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation), 2004, de Sofia Coppola. Que cidade! Filme memorável! Notável!
E as trilhas sonoras do Ryuichi Sakamoto, em “O Último Imperador”, “O Céu que nos Protege”, “Furyo – Feliz Natal, Mr. Lawrence/Em Nome da Honra”?
Moda, cultura, tecnologia, saúde, transporte, educação, segurança, tradição, modernidade, ordem, progresso, respeito, trabalho. A grife, “Made in Japan”.
Minas, Japão de Queijo.
Enfim, a Usiminas é o exemplo da tão almejada harmonia, do tão necessário equilíbrio: a informalidade brasileira construindo coisas belas e fortes com a seriedade japonesa.
PS: então, enquanto o Japão não inventa a máquina de filmar sonhos, vou torcer para que a Nippon, pelo menos, transforme sonhos em realidade. Arigatou e à demain.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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