29 de fevereiro de 2024
Walter Navarro

Grande Sertão: Verezas


Ontem, com raras exceções, desci a borduna, a lenha e o pau no Cinema Brasileiro. Não retiro uma só vírgula do texto, mas quero colocar outras, desta feita, em forma de elogios, também raros.
Não generalizei, dizendo que todos os filmes nacionais são péssimos, porque não sou burro. Dei até alguns exemplos. Não falei muito, não falei mais, porque o texto ficou muito grande, como sempre. O assunto é grande e bom, “sorry, periferia”.
Pensando em tudo isso e mais aquilo, resolvi que, mesmo aplaudindo alguns filmes, fui meio cruel, injusto.
Porque, hoje, em minha diária caminhada de meia hora, pensei em um bom filme de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), “Memórias do Cárcere” (1984), baseado no livro póstumo e na própria experiência do escritor alagoano, Graciliano Ramos (1892-1953). No papel principal, o magistral Carlos Vereza.
Graciliano é mais conhecido por “Vidas Secas” (1936/37), livro também adaptado pelo mesmo Nelson Pereira dos Santos, em 1963. Bom, mas muito seco e triste, apesar de esbanjar vida dura.
E se é pra elogiar, vamos lá: Nelson, também farol do Cinema Novo, tem pelo menos quatro outros ótimos filmes: “Rio, 40º” (1955), “Rio, Zona Norte” (1957), “Boca de Ouro” (1962) e “Como era Gostoso o meu Francês” (1971). Ah! E um documentário – cujo tema já é covardia – “A Música Segundo Tom Jobim” (2012).
Aleatoriamente, “de cabeça”, vou pescar outras pérolas do nosso cinema, OK?
Os Irmãos UNIBANCO: Walter e João Moreira Salles. Não sou muito chegado, mas gostei de alguns. Do Walter, “Chico, ou o País da Delicadeza Perdida” (1989), sobre Chico Buarque; “O Primeiro Dia” (1998) e “Diários de Motocicleta” (2004). “Central do Brasil”, o mais famoso, acho chato. “Abril Despedaçado” (2001), não vi, mas gostaria.
De João Moreira Salles, documentarista: “Santiago” (2006), mesmo “editado”… E “Nelson Freire” (2003), que não vi, mas adoro o tema, nosso maior pianista clássico.
Dois Salles puxam outro Salles: Lindo filme, “Nunca Fomos Tão Felizes” (1984), de Murilo Salles, com um excelente Cláudio Marzo (1940-2015).
Um Marzo também puxa outros bons filmes com o ator: “A Lira do Delírio” (1978), de Walter Lima Jr, ao lado de Anecy Rocha – trágica irmã de Glauber – e “Pra Frente Brasil” (1982) de Roberto Farias (1932-2018), que elogiei, ontem, por “Assalto ao trem Pagador” (1962).
Tudo filme de esquerda, talkei? Contra a “ditadura”, denunciando a tortura…
E por falar no ótimo “Pra Frente, Brasil”, além de Cláudio Marzo, tinha, no papel principal, o irmão de Roberto, Reginaldo Faria, outro grande ator. Roberto tinha um “s” em Farias, por engano… mas aí já é outro longa-metragem.
Só sei que este povo lembra-me José Wilker (1944-2014) e Cacá Diegues.
Um grande filme de Cacá, com José Wilker, é “Bye-Bye Brasil” (1979). Outro bom filme com Wilker é “Os Inconfidentes” (1971), do mestre Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) e “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976) de Bruno Barreto, traçando a deliciosa Sônia Braga.
Sônia Braga, antes de ficar feia e chata, me lembra “A Dama do Lotação” (1978), de Neville d’Almeida, que também elogiei ontem e dirigiu outras delícias como “Os Sete Gatinhos” (1980) e “Rio Babilônia” (1982).
Quem mais? Porque já estou elogiando demais e isso acaba com minha reputação e minha fama de mau.
Cacá Diegues… Este merece um capítulo pelas belezas e merdas que fez. “Quando o Carnaval Chegar” vale pela música do Chico Buarque e os “atores”: Chico, Nara Leão e Maria Bethânia, pode?
Chico também fez a música de “Bye-Bye Brasil” e, do mesmo Cacá, “Joanna Francesa” (1973), com Jeanne Moreau…
De Chico para Xica, Cacá fez também os bons “Xica da Silva” (1976) e “Chuvas de Verão” (1978).
Agora, “Quilombo”, salvo engano, foi o único filme a ser vaiado de pé, em Cannes. Simplesmente ridículo, repleto de “defeitos especiais”. O Brasil era como a França, não tinha dinheiro, nem técnica, para filmes de ação. Vocação apenas para filmes mais intimistas. Mas, hoje, temos os dois “Tropa de Elite” que provam uma evolução técnica percebível.
Dizem… Que o mais recente filme de Cacá, “O Grande Circo Místico”, de novo com música de Chico, é muito bom. Não sei.
Ontem, elogiei muito Arnaldo Jabor, mas seu primeiro filme, “Pindorama” (1970), em suas próprias palavras, é uma bosta. Em compensação, o último, “A Suprema Felicidade” também é uma merda, em minhas próprias palavras.Só se salva a atriz Tammy Di Calafiori, nua, pelada e gostosa daqui até o Vietnã, passando pelo deserto do Saara.
PQP! O texto já ficou gigante e cheguei nem à metade do que eu queria… Vou resumir e esquecer coisas inesquecíveis, tá?
Agora um puta filme, que pouca gente conhece. Filme de uma nota só; do diretor de um filme só, que poderia ter feito mais, o publicitário José Zaragoza, o Z da agência DPZ. Um ótimo filme brasileiro, que destoa da maioria, mostrando o Brasil rico e moderno. Mesmo o nome é bonito: “Até que a Vida nos separe” (1999).
Mil perdões por milhões de esquecimentos, tipo “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado. Mas, para não dizerem que não falei da flor atual do cinema brasileiro: Fernando Meirelles, com “Cidade de Deus” (2002); meu favorito, “O Jardineiro Fiel” (2005) e “Ensaio sobre a Cegueira” (2008).
Ia esquecendo o principal. Toda essa ladainha foi por causa de “Memórias do Cárcere”, com o ator Carlos Vereza que, hoje, como diretor, roteirista e ator, sem Lei Rouanet, detonando o PT, votando e defendendo Bolsonaro, teve seu filme, “O Trampo”, selecionado para concorrer como melhor filme estrangeiro em Madri.
Vi entrevista com ele e o trailer. Tomara que vença!
PS: Ops! Pernambucanos fazem bons filmes, mas os argentinos são muito melhores.

Walter Navarro

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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