Au revoir, mon cher et grand Monsieur Jacques


Tenho 69 quilos de assuntos a tratar, mas hoje, dia 26 de setembro de 2019, vou parar tudo, porque morreu Jacques Chirac, em Paris, aos 86 anos.
Eu adorava o Jacques.
Por causa de Jacques Chirac, pela primeira e última vez, tive vontade de ser esgoto em Nova York.
Não vou consultar o Google. Então, mil perdões por alguma falha de memória. Vou escrever de cor, “de coeur”, de coração.
Acho que foi em 2003, meu desejo incontrolável de ser esgoto em Nova York.
Chirac desafiou, enfrentou Bush e recusou-se a penetrar na segunda guerra contra o Iraque. Em represália, os americanos, publicamente, abriram garrafas de vinho francês e despejaram o tesouro nos bueiros.
Mas minha admiração por Chirac é muito mais antiga. Deve ter mais de 30 anos.
Vivi em Paris, entre idas e voltas, 14 anos, mas sob a presidência de seu maior oponente, o socialista François Mitterrand, eleito, depois de três retumbantes fracassos, como Lula, em 1981.
Desde então, Chirac viveu à sombra de Mitterrand. Muitas vezes protagonizando chacotas, o esporte favorito dos franceses.
E olha que eu gostava do Mitterrand. Claro, eu tinha 19 anos e debutava em Paris, na vida.
Mitterrand era a Rosa Vermelha e blá, blá, blá.
E Chirac, à Direita e lá, só esperando.
Enquanto isso, ele foi prefeito de Paris, pasmem, por três vezes, 18 anos.
No Youtube vi, ano passado, dois documentários sobre Chirac, para quem entende francês. Salvo engano, mais de três horas com dois títulos: “O Jovem Lobo” e “O Velho Leão”.
Sem grandes explicações, tratam da trajetória política de Chirac, ninado no berço de Charles de Gaulle.
Falava um bom inglês, com um sotaque horrível e hilariantemente francês; não porque fritou hambúrguer, mas porque, na juventude transviada, vendeu “milk shake” em New Orleans.
Hoje, passei o dia ligado às homenagens mundiais ao Chirac, na TV francesa. Às 21h (16h no Brasil), vi, ao vivo, a Torre Eiffel, de luto, ser apagada em homenagem ao melhor prefeito que Paris já teve. Emocionante.
Chirac era, antes de um tudo, um Estadista, um homem que sabia seu lugar na França e o lugar da França no mundo.
Era amigo sincero da África, mas também de Israel e da Palestina.
Quando conheci Paris, em 1982, Mitterrand acabara de ser eleito, em 1981. Quando saí, em 1995, Mitterrand entregava a presidência, finalmente, a Jacques Chirac. O mesmo Chirac que já ocupara todos os cargos, inclusive o de primeiro ministro, sob Mitterrand. E o parlamentarismo, muitas vezes de “coabitação”, existe perfeitamente na França.
Chirac foi eleito por sete anos e reeleito, para mais cinco. Em 2005 teve um primeiro AVC.
Em 2006, deixou sua marca eterna na “chérie Paris”, o Museu do Quai Branly, outra linda e longa história. É o Louvre dos “pobres”, Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas. Recomendo de com força (sic) kkkkkkkkkkkkk.
Em 2007, abandonou a política.
Chirac era a cara da França, mas o contrário do francês médio: alto, bonito, viril, culto, inteligente, malandro e “gentleman”; um sedutor. E muito engraçado na sua formalidade, falando um francês erudito, impecável, como o praticava o próprio Mitterrand.
Chirac era a França que está acabando. Saiu da vida para entrar na história, inclusive na mais humilde e vagabunda, a minha.
Merci, Jacques. Foi uma legião de honra respirar o mesmo ar que você.
PS: Ah se eu tivesse três garrafas de Champagne, hoje…
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