A vida, o cansaço, a morte e o descanso do Guerreiro

Prometi que só voltaria a escrever no ano que vem, que chega a galope. Estava quietinho no meu canto, curtindo o fim de um feliz Natal, em Barbacena.

Mais aí veio a Roda Viva da Morte.

Fui tomar a saideira.

Na volta, abro o Facebook e dou de cara com este texto e duas fotos do casal querido:

“Maria Teresa Freire está com Antonio Guerreiro. Adeus meu amado e querido marido! Que Deus o receba de braços abertos. Te amarei para sempre!”.

Vou ao gelado Google e:

Fotógrafo Antônio Guerreiro morre no Rio aos 72 anos de idade, ele estava internado na Policlínica de Botafogo para tratar um câncer. Corpo de Guerreiro será velado no domingo (29) no Memorial do Carmo, no Caju.

Assim.

Assim com A de Acabou.

Bom, agora que comecei pelo fim, como tudo na vida, posso voltar ao início.

Eu sabia que a saúde dele andava meio Série B. Soube de uma queda, problemas cardíacos. Aí vem o Google e carimba câncer, esta palavra boba, chata, fedorenta e maldita. O homem vai à Lua, quer ir à Marte e não resolve a fome no mundo, o saneamento básico no Brasil e esta doença que já matou 1069 amigos e familiares.

Pausa para procurar as duas últimas mensagens que ele me enviou:

“querido amigo, operei a cervical, estou em fase de recuperação, demorada !!! tenho te acompanhado, quando vier por essas bandas me avisa, mil beijos !!!”.

“saudades, bjs !!!”.

Isso foi em agosto do ano passado.

Mas tempo pra gente, desde o início, significava porra nenhuma.
Desconfio severamente do Carnaval de 2017.
Omar “Catito” Peres convidou a mim e amiga em comum, Nely Rosa, para o Carnaval em sua linda fazenda, nos arrabaldes de Vassouras (RJ), salvo engano, algo como Rio das Flores.
Fomos, claro.
No meio do caminho soubemos da morte do ainda mais amigo, Paulo Giordano.
Erramos o caminho.
Estradas bonitas, coisas de Minas e Rio, com cheiro de interior de São Paulo.
Chegamos e fomos os primeiros.
Eu, só conhecia Nely e o anfitrião que sempre foi um grande anfitrião na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Outras histórias.
Catito havia convidado muitos amigos famosos, entre outros anônimos.
Na primeira noite, sei lá, éramos seis, quinze, 16….
Bebemos e comemos bem, claro.
Era proibido ligar a TV e sinal de celular era como neurônio em cabeça de petista.
Pausa para explicar que Catito, além de Lula, é Ciro Gomes.
Não bati nele. Me comportei. Sou um cara civilizado, educado.
Ops! Quase escrevi que sou bom companheiro. Prefiro, boa companhia.
Pois bem.
Dia seguinte, piscina.
Acordei tarde, para variar.
Ao chegar à cerveja, perdão, piscina, o espaço já estava meio tomado e dominado.
Instalei-me onde consegui e comecei a “interagir”, odeio esta palavra. Comecei a puxar conversa.
No meio da conversa, percebo um cara de costas, cabelos levemente grisalhos, barba idem.
Depois vi seu rosto bonito e simpático. Olhei para ele e falei para meu Narciso: “Conheço esta peça de algum lugar”.
Claro que não ia pagar mico e perguntar quem era.
Favor lembrarem que a fazenda estava cheia de famosos e que eu conhecia ninguém, um estranho bem-vindo ao ninho…
Pois bem.
Conversa vai, conversa vem, descobri o estranho no meu ninho: Antônio Guerreiro, o enorme fotógrafo, das mulheres mais lindas do Brasil, quiçá do mundo.
Aí o negócio ficou bom.
Ele me contou cada uma….
E fiz cada pergunta….
Cometi e resolvi cada curiosidade…
Nunca serei indiscreto, ainda mais hoje, dia de sua morte. Mas, confesso que suas lentes, impressas em “revistas masculinas”, me deram uma mãozinha direita em muitas punhetas juvenis.
Depois disso, evolui muito. Hoje, uso também a mão esquerda!
Mas isso não interessa e já estou vendo gente torcer o nariz moralista para minha sinceridade/confissão.
Foda-se!
Mesmo porque, hoje, o que interessa não são minhas mãos. Mas as dele. Os dedos e olhos de “Antoine”, como eu o chamava “in box” no Facebook.
Então é isso, nossa amizade de infância, de outro e único Carnaval, faria dois anos, daqui a pouco.
Que sorte a minha!
E de quebra, ainda conheci sua linda mulher, Teresa.
E seus amigos que hoje são meus amigos.
Amigos, todos, de um carnaval; samba de uma nota só. Mas samba de Tom Jobim e Carlinhos Lyra.
Nestes quase dois anos trocamos mensagens, fotos e confissões. Ambos ficávamos putos com a censura deste Facebosta.
Tudo que ele postava eu curtia, compartilhava e às vezes, comentava.
Nunca tivemos um banal problema, uma vulgar discordância. Afinal, era amizade carnaval, um carnaval que passou, onde fomos Pierrot, cercado de Colombinas.
O que ficou…
Uma admiração do tamanho de um bonde.
Um Carnaval.

PS: Tchau, “mon cher Antoine”. Obrigado pela beleza, pelas punhetas, pela gentileza e pelos confetes.

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