18 de abril de 2024
Cinema

A Sociedade da Neve / La Sociedad de la Nieve

De: De J.A. Bayona, Espanha-EUA-Chile-Argentina, 2023

Nota: ★★★★

(Disponível na Netflix em 2/2024.)

Texto de Mary Zaidan, convidada especial: A quase inacreditável história dos sobreviventes do acidente do vôo 571 da Força Aérea Uruguaia nos Andes já foi contada em livros e em filmes, o primeiro deles, uma produção mexicana, Os Sobreviventes dos Andes, de René Cardona, lançado em 1976, apenas quatro anos depois da tragédia. Mas este A Sociedade da Neve/La Sociedad de la Nieve), do diretor Juan Antonio Bayona, conhecido como J. A. Bayona, parece ser definitivo ou, no mínimo, difícil de ser superado.

Vai muito além do canibalismo, explorado sem limites em produções anteriores, em momento algum exposto explicitamente pela câmara do diretor espanhol, que se concentra nas dúvidas morais, na fragilidade e no vigor que a maioria de nós nem mesmo imagina ter, na sensibilidade e solidariedade que nos faz humanos.

Selecionado pela Espanha para disputar o Oscar 2024 de Melhor Filme Estrangeiro, o filme é uma co-produção Espanha-Estados Unidos- Uruguai-Chile. Teve 66 indicações a prêmios, incluindo o Bafta, e venceu 37 delas. Em Hollywood disputa ainda o Oscar de Melhor Maquiagem para o trio Ana López-Puigcerver, David Martí e Montse Ribé.

J.A.Bayona, que divide o roteiro com Barnat Vilaplana, Jaime Marques, Nicolás Casariego e Pablo Vierci, jornalista uruguaio e autor do livro com o mesmo título (Companhia das Letras) no qual o filme se baseia, optou por centrar a trama na angústia dos jovens jogadores do time amador de rúgbi, a maioria católicos praticantes, que, ao lado de familiares e alguns amigos, embarcam de Montevidéu para Santiago do Chile.

A apresentação dos viajantes – com destaque para o narrador Numa Turcatti, interpretado pelo uruguaio Enzo Vogrincic (na foto abaixo), morto antes do resgate – dura poucos minutos, o suficiente para mostrar alguns dos jovens na igreja e que Numa preferia não ir e só havia decidido embarcar na última hora. Pouco depois da foto festiva do início da excursão, com os 40 passageiros e cinco tripulantes, e a previsível balbúrdia de adolescentes dentro da aeronave, tem-se o acidente, exibido em ângulos realistas e impactantes assinados pelo fotógrafo Pedro Luque (de Besouro Azul). Mostra-se o avião sendo destruído e o desespero dos viajantes, sob uma trilha sonora arrepiante, mas sem o sensacionalismo de exibir corpos dilacerados.

A queda no Vale das Lágrimas, nos Andes argentinos, dividiu a cabine de comando do resto da aeronave, onde 29 sobreviventes iniciaram sua luta pela vida no meio do nada. Sob o frio lancinante e sem comida, os ainda vivos assistem a parte do grupo sucumbir lentamente, um a um. Decidem, então, se alimentar dos mortos. Não bastasse, eles tiveram de vencer uma avalanche que os deixou soterrados por quatro dias, presos dentro do que restou do miolo do avião.

Treze morreram ao longo dos 72 dias. Seus nomes aparecem na tela em letras brancas, pautando a ordem dos acontecimentos. Em tomadas esplêndidas, os 16 sobreviventes passam da euforia inicial do resgate ao indecifrável depois, com expressões atormentadas em um silêncio perturbador.

Comer ou não comer os amigos mortos?

Pela aversão que provoca, o canibalismo a que foram forçados os sobreviventes dos Andes, que até hoje é motivo de condenação, gerando infinda polêmica, pode não se aplicar à concepção original da palavra, que definiria uma prática, portanto contínua, de gente comer gente. Artigo do professor de Antropologia de Sevilha, David Laguna, “A complexa relação humana com o canibalismo ao longo da história”, publicado no site acadêmico The Conversation e replicado pela BBC News (https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0xl789yv5lo) ilumina o tema exatamente ao discutir o sucesso do filme de Bayona. De qualquer forma, o canibalismo se tornou quase sinônimo da tragédia dos sobreviventes. De início, eles tentaram esconder o ato, que, depois de revelado, os transformou de heróis a execráveis canibais, com todo o peso pejorativo que a palavra carrega.

Em Vivos (Alive), de 1993, (disponível na Apple TV+), produção americana baseada no livro de Piers Paul Reads dirigida por Frank Marshall, produtor de vários dos filmes de Steven Spielberg, o canibalismo é exposto nas entranhas, sem poupar o espectador. Em A Sociedade da Neve (o mesmo título usado para um documentário dirigido por Gonzalo Arijón, em 1997, com testemunhos dos 16 sobreviventes), o ato de comer os amigos mortos está lá, com crueza, mas, acreditem, com delicadeza. Até com dignidade. Há longas sequências de indecisão, medo e culpa, parte delas em um silêncio cortante. Discutem-se crenças, Deus, vida e morte. O companheirismo e a solidariedade transbordam, e, ainda que líderes naturais surjam em cada uma das agonizantes fases dos mais de dois meses naquele ambiente inóspito, não há espaço para críticas ou disputas. Nem mesmo os que a princípio discordam do canibalismo contestam a decisão, embora resistam a comer a carne. Não há cenas de mortos sendo dissecados e são poucas as tomadas em que carne humana é ingerida.

Um libelo de amizade e companheirismo

J. A. Bayona, de apenas 48 anos (nasceu em Barcelona, em 9 de maio de 1975), já havia dirigido outro filme baseado em uma tragédia da vida real: o tsunami de 2004 que assolou as Filipinas, O Impossível, com Naomi Watts e Ewan McGregor, considerado um tanto exagerado pela crítica, chegou às telas em 2012. O cineasta se tornara conhecido alguns anos antes, com o terror O Orfanato, 2007, com a icônica Geraldine Chaplin. Seu currículo traz ainda a fantasia Sete Minutos depois da Meia-Noite, 2016, com um elenco de tirar o fôlego: Lewis MacDougall, Sigourney Weaver, Felicity Jones, Toby Kebbell e Liam Neeson.

O elenco é outro brilho de A Sociedade da Neve. Os jovens atores foram selecionados no Uruguai e na Argentina, o que conferiu mais realismo à história do que em versões com casting mexicano ou americano. E todos, sem exceção, dão um show de interpretação. Além de Vogrincic, que interpreta o narrador, destacam-se Agustín Pardella (Nando Parrado), Matías Recalt (Roberto Canessa), Esteban Kukurica ( Adolfo Strauch, conhecido como Fito), Esteban Bigliardi (Javier Methol) e Valentino Alonso (Alfredo Delgado, o Pancho).

Nando contou a história daqueles 72 dias em Milagre dos Andes, 2006, publicado no Brasil pela Objetiva. Roberto também escreveu sobre a tragédia no livro I Had to Survive, inédito no Brasil. Os dois foram os que se arriscaram pelos picos e vales nevados em busca do mar do Chile, conseguindo fazer contato com a civilização depois de dias de caminhada em condições extremas. Nesse trajeto, revela-se mais uma vez a sensibilidade com que a tragédia foi tratada neste A Sociedade da Neve. Depois de subir a montanha que parecia ser a mais alta, eles e a câmara se deparam com a beleza infinita da cordilheira com dezenas de picos gelados a perder de vista.

– “Olha como é lindo”, diz Nando.

– “Pena que estamos mortos”, rebate Roberto.

O diálogo que acabou por definir que eles viveriam, prossegue, com a câmara fechada em close-up no rosto de cada um deles.

Nando: – “Eu não vou voltar. Os Andes têm de terminar em algum momento. Aí atrás está o mar.”

Roberto: – “Sempre atrás.”

Nando: – “Olhe onde estamos. Depois de tudo que subimos tudo está aos nossos pés. Só temos de atravessar o vale. Quanto tempo pode levar? 10, 12 dias?”

Roberto: – “Só temos comida para uma semana.”

Nando: – “O que você prefere? Vir caminhar comigo ou esperar no avião?”

Roberto: – “Me pede para morrer contigo.”

Nando: – “Te peço para me acompanhar.”

É de tirar o fôlego. Mas não pára por aqui. Com expressão entre a loucura e a esperança, Nando aponta para o infinito: – “Olha ali. No meio. É como um par de seios. Não tem neve lá. Viu? Ali é o Chile. Está vendo?”

Mesmo sem nada enxergar, Nando completa: – “Estou vendo”. E os dois rolam montanha abaixo para, 10 dias depois, guiar os helicópteros que salvariam os demais.

A Sociedade da Neve é isso. Um filme que transforma a tragédia que muitos preferem chamar de milagre em um libelo de amizade e companheirismo, em uma lição de humanidade.

Anotação em fevereiro de 2024

A Sociedade da Neve/La Sociedad de la Nieve

De J.A. Bayona, Espanha-EUA-Chile-Argentina, 2023

Com Enzo Vogrincic (Numa Turcatti), Agustín Pardella (Fernando Parrado), Matías Recalt (Roberto Canessa), Esteban Bigliardi (Javier Methol), Diego Vegezzi (Marcelo Pérez del Castillo), Fernando Contingiani Garcia (Arturo Nogueira), Esteban Kukuriczka (Adolfo Strauch, Fito), Francisco Romero (Daniel Fernández Strauch), Rafael Federman (Eduardo Strauch), Valentino Alonso (Alfredo Delgado, Pancho), Tomás Wolf (Gustavo Zerbino), Agustín Della Corte (Antonio Vizintín, Tintin), Felipe Gonzalez Otaño (Carlitos Páez), Andy Pruss (Roy Harley), Blas Polidori (Gustavo Nicolich, Coco), Felipe Ramusio (Diego Storm), Simon Hempe (José Luis Inciarte, Coche), Luciano Chattón (Pedro Algorta), Rocco Posca (Ramón Sabella, Moncho)

Roteiro J.A. Bayona e Bernat Vilaplana & Jaime Marques-Olarreaga &

Nicolás Casariego

Baseado no livro de Pablo Vierci

Fotografia Pedro Luque Briozzo Scu)

Música Michael Giacchino     

Montagem Andrés Gil. Jaume Martí 

Casting María Laura Berch, Javier Braier. Iair Said       

Desenho de produção Alain Bainée

Produção Belén Atienza, J.A. Bayona, Philip Bolus, Sandra Hermida, El Arriero Films, Misión de Audaces Films, S.L, Netflix.

Cor, 144 min (2h24)

Fonte: 50 anos de filmes

Sergio Vaz

Jornalista, ex-diretor-executivo do Jornal Estado de São Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

Jornalista, ex-diretor-executivo do Jornal Estado de São Paulo e apreciador de filmes e editor do site 50 anos de filmes.

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