20 de abril de 2024
Colunistas Ricardo Noblat

O outro lado do outro lado: tenta-se reduzir o golpe a simples minutas

Esse filme já passou, e no fim o bandido dá-se mal.

Uma vez que ninguém sai em sua defesa depois da divulgação do vídeo onde tentou convencer seus subordinados a apoiarem o golpe que ele tanto acalentava, Bolsonaro vai à luta para provar sua inocência.

Melhor que seja assim. Para que não diga mais tarde que foi condenado sem poder apresentar as razões por ter feito o que fez. E não foi apenas ao fim do mandato, mas desde o primeiro dia na presidência.

Dilma Rousseff disse que foi vítima de um golpe parlamentar quando o Congresso a derrubou para estancar a sangria da Lava Jato, que ela tanto estimulou. Porém, legitimou o golpe ao participar do rito do impeachment.

Bolsonaro também legitima o processo que acabará com sua prisão. No seu caso, não poderá dizer que foi um golpe parlamentar. Então ele dirá que foi um golpe da mais alta Corte de Justiça do país.

O que move o Congresso a depor um presidente são razões políticas, essencialmente políticas. Não precisa de provas de um crime para cassá-lo. Para tal, a justiça precisa de provas robustas, irrecusáveis e convincentes.

Não serão apenas minutas do golpe abortado – uma delas, encontrada no gabinete onde Bolsonaro despacha na sede do seu partido, o PL. Seus advogados afirmam que ela foi impressa porque ele enxerga mal.

E por que Bolsonaro queria ler a minuta de golpe que, segundo ele, nunca planejou dar? Diante de uma minuta, o presidente seria obrigado a mandar prender seu autor, ou autores. Está previsto em lei.

Diante de um auxiliar que falasse em “virar a mesa” antes de eleições consideradas perdidas, e que se dariam dali a três meses, o presidente deveria tê-lo mandado prender. Mas não foi assim. Calou-se.

Na reunião ministerial de 5 de julho de 2022, o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, defendeu “virar a mesa” e sugeriu espionar a campanha de Lula.

“Virar a mesa”, naquele contexto, significaria dar um golpe. Bolsonaro ouviu calado. Só interferiu quando Heleno falou em espionar a campanha de Lula. Aí pediu para conversar mais tarde com ele, e a sós.

Espionagem e virada de mesa são crimes. Pouco importa que não tenham ocorrido – se é que a Agência Brasileira de Inteligência, subordinada a Heleno e sob a chefia do delegado Alexandre Ramagem, não espionou a campanha de Lula.

A reunião daquele dia não pode ser vista apenas como um ato de desespero que tomou conta de Bolsonaro e dos seus companheiros de organização criminosa. Bolsonaro merece ser condenado pelo conjunto da sua obra.

No dia 7 de setembro de 2021, na Avenida Paulista, Bolsonaro disse que não respeitaria mais as decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a quem chamou de canalha.

No dia 7 de setembro do ano seguinte, em plena campanha eleitoral, aproveitou-se de estruturas das Forças Armadas no Rio de Janeiro para fazer um discurso político, coisa que a lei eleitoral proibia.

Antes disso, no Palácio da Alvorada, reuniu-se com embaixadores estrangeiros para desacreditar o processo eleitoral brasileiro. Vencido, deu ordens para acampar à porta de quarteis devotos golpistas, rebelados.

No início de dezembro de 2022, convocou os comandantes militares para sondá-los sobre uma eventual virada de mesa. E recebeu um hacker, interessado em saber se as urnas eram frágeis e devassáveis.

Os acampados que exigiam a anulação dos resultados da eleição presidencial lancharam por conta de Bolsonaro no Palácio da Alvorada antes de saírem a tocar fogo em ônibus no centro de Brasília e atacar prédios.

Foi no dia 14 de dezembro. Lula já havia sido diplomado presidente no Tribunal Superior Eleitoral. No dia 23, um golpista afixou uma bomba em um caminhão que, se explodisse, destruiria parte do aeroporto de Brasília.

Tudo isso, e mais o que venha ainda a ser apurado, constará da acusação que Bolsonaro terá de rebater para salvar-se. E não adianta alegar que jamais jogou fora das quatro linhas da Constituição. Jogou para rasgá-la.

Bolsonaro prometeu responder a todas as acusações que lhe pesam às costas no próximo dia 25, um domingo. E convidou para ouvi-lo na Avenida Paulista seus devotos vestidos de amarelo e verde.

Esse filme já passou, e, no fim, o bandido dá-se mal.

Fonte: Blog do Noblat

Ricardo Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *