21 de abril de 2024
Colunistas Ricardo Noblat

Mauro Cid é só um: o militar que dá nojo porque desonrou a farda

O desabafo que ele fez em conversa com um amigo poderá apressar a sua e a condenação de Bolsonaro.

A Polícia Federal tem mais de 30 horas de gravações da delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordem de Bolsonaro. Elas confirmam tudo o que foi encontrado na memória do celular de Cid e o que ele mais contou espontaneamente em seis depoimentos prestados.

Mas Cid sempre foi um aprendiz de Bolsonaro. E entre as muitas lições que recebeu, destaca-se uma: em perigo, de preferência atire no próprio pé e jogue a culpa nos outros. Foi o que Cid fez na semana passada, em desabafo gravado por um amigo, ao desacreditar o que revelou na delação.

A revista Veja, em sua edição deste fim de semana, trouxe parte do desabafo. Cid diz, por exemplo, que a polícia o pressionou a relatar fatos que simplesmente não aconteceram e detalhar eventos sobre os quais não tinha conhecimento:

– Eles (os policiais) queriam que eu falasse coisas que eu não sei, que não aconteceram. Você pode falar o que quiser. Eles não aceitavam e discutiam. E discutiam que a minha versão não era a verdadeira, que não podia ter sido assim, que eu estava mentindo.

– A lei já acabou há muito tempo. A lei é eles, eles são a lei, o Alexandre Moraes é a lei. Ele prende quando ele quiser, como ele quiser; com Ministério Público, sem Ministério Público, com acusação, sem acusação.

– Eu vou dizer o que eu senti: eles já estão com a narrativa pronta, é só fechar. Eles querem o máximo possível de gente para confirmar a narrativa deles. É isso que eles querem.

– Se eu não colaborar, vou pegar 30, 40 anos. Porque eu estou [no caso da] vacina, eu estou [no caso da] joia.

– Vai entrar todo mundo em tudo. Vai somar as penas lá, vai dar mais de 100 anos para todo mundo. Entendeu? A cama está toda armada. E vou dizer: os bagrinhos estão pegando 17 anos. Teoricamente, os mais altos vão pegar quantos?

Em nota, a defesa de Cid desmentiu-o:

– Referidos áudios divulgados pela revista Veja, ao que parecem clandestinos, não passam de um desabafo [de Cid] que relata o difícil momento e a angústia pessoal, familiar e profissional pelos quais está passando, advindos da investigação e dos efeitos que ela produz perante a sociedade, familiares e colegas de farda, mas que, de forma alguma, comprometem a lisura, seriedade e correção dos termos de sua colaboração premiada.

Cid, hoje, será ouvido outra vez pela Polícia Federal. O que se mantém de pé: o que Cid contou nos depoimentos em troca de uma pena de prisão mais leve, ou o desabafo que fez ao amigo? A depender da resposta, Cid poderá novamente ser preso, e o acordo de delação desfeito.

A Polícia Federal dispõe de provas e indícios suficientes de que Bolsonaro planejou um golpe, roubou joias milionárias presenteadas por governos estrangeiros ao Estado brasileiro e pediu a Cid que falsificasse certidões de vacinação contra a Covid para que ele e a filha pudessem circular no exterior.

O ministro Alexandre de Moraes, presidente do inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal que apura crimes contra a democracia cometidos ao longo do governo Bolsonaro, já admite anular a delação de Cid. Se isso acontecer, pior para Cid, mas não só para ele, também para sua mulher e seu pai.

Gabriela Cid, mulher de Cid, aparece em mensagens trocadas com Ticiana Villas-Bôas, filha do ex-comandante do Exército general Villas-Bôas, sobre as manifestações na porta dos quartéis e discutindo o futuro de Moraes. O pai de Cid, um general da reserva, envolveu-se na venda das joias roubadas.

De todo modo, Cid prestou mais um serviço a Bolsonaro, que agora usará em sua defesa o que ele disse ao amigo. Mas isso não impedirá o ex-presidente de ser condenado e preso, talvez até apresse a condenação. Não há dois Mauro Cid na praça: o que diz uma coisa e depois o contrário. Só há um. Qual?

O militar que desonrou a farda que vestia e envergonhou o Exército. Como fez Bolsonaro no passado.

Fonte: Blog do Noblat

Ricardo Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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