1 de julho de 2022
Ricardo Noblat

Lula está vivíssimo!

Lula no velório da mulher (Foto: Edilson Dantas / O Globo)

Marisa Letícia fará muita falta a Lula. Não só porque cuidou da família e do próprio Lula para que ele pudesse se dedicar apenas à política, como também porque foi a única pessoa a ter coragem de dizer coisas duras ao marido, obrigando-o a escutá-la e a levar em conta o que ouviu.
Lula nem sempre levou.
Atravessaram juntos bons e maus momentos. Viviam um mau momento antes de ela morrer.
Filha de imigrantes italianos, Marisa era a encarnação quase perfeita da “la mamma”, descontados certos exageros. Lula podia mandar no sindicato, no PT, no país, mas em casa quem mandava era ela – nos filhos, nas finanças da família, no guarda-roupa do marido, em tudo.
Ninguém era admitido na intimidade dos Silva contra a vontade de Marisa, que sabia distinguir entre os amigos do casal e os amigos de Lula.
Aí de quem tentasse mexer com seus filhos e com o próprio Lula – ela subia nas tamancas, dizia palavrões e sacava do maço de cigarros. A Lava Jato mexeu muito com a família.
Ela e os filhos estavam sendo investigados. Lula virara réu em cinco processos. Natural que os conflitos entre eles se tornassem mais frequentes. Que mulher “do lar” não cobra proteção ao ver seu mundo ameaçado?
Marisa era “do lar”. Ela não se identificaria com a figura que tentam construir da militante política assassinada pelos interessados em assassinar seu marido.
Um jornalista chegou a escrever que “atiraram em Lula e acertaram em Marisa”. Esqueceu-se de lembrar que ela sabia que carregava há mais de 10 anos o aneurisma que a matou; bebia, fumava muito e se recusava a fazer exercícios físicos.
No velório em São Bernardo do Campo, Lula disse que Marisa morreu triste. De fato, estava triste com tudo, até com ele. Depois que foi conduzido coercitivamente para depor no ano passado, Lula concluiu que só o protagonismo político seria capaz de salvá-lo. E passou a exercê-lo com energia renovada.
Era a volta da jararaca que, apesar da bordoada, não perdera a cabeça. Passou a falar em ser candidato em 2018.
Marisa pensava o contrário. Recomendava a Lula que fosse discreto, não afrontasse o Ministério Público e a Justiça, e que se dedicasse mais à família abalada. Talvez o culpasse indiretamente pela situação que a afligia.
Em desabafos com amigos, Marisa também culpava Dilma. Nunca gostou dela nem confiou. E nunca a perdoou por ter deixado seu marido ao desabrigo quando ele mais precisava dela.
Amigos de Lula não se arriscam a prever como ele se comportará daqui para frente. Ficaram surpresos quando baixou sobre ele o “Lulinha Paz e Amor” que recepcionou no hospital Sírio-Libanês o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente Michel Temer, acompanhado de ministros de Estado e senadores.
Gostaram quando a jararaca voltou a picar seus desafetos em discurso à beira do caixão de Marisa.
Nas duas ocasiões, Lula foi o que se tornou desde seus tempos de líder sindical – o hábil político incapaz de dizer uma palavra ou de fazer um só gesto em desacordo com a persona criada por ele para gosto dos seus aliados, e encantamento de adversários possíveis de serem conquistados.
No hospital, Lula pediu a Temer que o chamasse para conversar sempre que quisesse. No velório, atacou a Lava Jato e se disse pronto para a briga.
Infelizmente, Marisa morreu. Quanto a Lula, continua vivíssimo e disposto a não se entregar mesmo que seja preso e impedido de se candidatar outra vez.
Fonte: Blog do Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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