24 de maio de 2022
Colunistas Ricardo Noblat

Bolsonaro dá xô pra votos quando mais precisa deles

A lição que vem do Maranhão e que o presidente não aprende

Menino de máscara e óculos com a mão para cima ao lado de placa escrito vacina
com uma seta vermelha – Igo Estrela/Metrópoles

Se dependesse do que defende o presidente Bolsonaro, não haveria vacinação infantil contra a Covid-19. Não vê necessidade por ser pequeno o número de crianças que já morreram.

Há dias, ele chegou a afirmar que o Ômicron, a nova cepa do vírus, por se espalhar depressa e ser pouco letal seria bem-vinda ao Brasil. Quem sabe assim não poria fim à pandemia… Ele disse:

“Segundo algumas pessoas estudiosas e sérias – e não vinculadas à farmacêuticas – dizem que a Õmicron é bem-vinda e pode sim sinalizar o fim da pandemia”.

Em certos temas, para não ser intimado pela Justiça a apresentar provas do que disse, Bolsonaro se vale de opiniões alheias sem identificar seus autores. É covardia, mas não é novidade.

O presidente fala grosso quando quer, ameaça os adversários, costuma posar de valente, mas se confrontado por quem possa fazê-lo engolir o que disse, recua e mia como um filhote de gato.

Quem quer pegar galinha não grita xô, como se ensina no Maranhão! Bolsonaro está à caça de votos, embora teime em gritar xô pra eles, o que aumenta o desespero dos que ainda o apoiam.

Apenas com o voto dos seus eleitores mais fanáticos, ele corre o risco de ficar de fora do segundo turno da eleição de outubro próximo, ou pior: de ver Lula se eleger no primeiro turno. E daí?

Daí que deveria estar lançando pontes na direção de quem possa socorrê-lo, e não se recolhendo à bolha dos bolsonaristas de raiz. Parte deles começa a sentir-se atraída por Sérgio Moro.

A vacinação contra Covid para crianças de 5 a 11 anos tem o apoio de 79% da população brasileira com 16 ou mais anos de idade, segundo pesquisa do Datafolha divulgada ontem.

O percentual equivale a 132,5 milhões de pessoas no país. Os que rejeitam a vacinação infantil representam 17%. Os que não sabem opinar a respeito somam 4%. Bolsonaro dá xô a votos.

A pesquisa mostra que 58% dos brasileiros de 16 anos ou mais de idade acham que o presidente mais atrapalha do que ajuda quando o assunto é a vacinação das crianças (97,3 milhões de pessoas).

Somente 25% (quase 42 milhões de pessoas) acham que ele mais ajuda do que atrapalha. 14% disseram não saber a resposta, e 2% subiram no muro escolhendo a neutralidade.

Homens são a maioria, 32%, na crença de que Bolsonaro mais ajuda que atrapalha, enquanto as mulheres lideram quando a opinião é contrária, de que ele atrapalha: 61%. Xô mulheres!

O pior candidato é o que só dá ouvido ao que quer ouvir. Na véspera do início da vacinação infantil em 10 capitais, Bolsonaro ligou para os donos de uma pousada de Fernando Noronha.

Prestou solidariedade a eles. A pousada havia sido interditada porque os donos recusaram-se a vacinar. Bolsonaro aproveitou para criticar o governador Paulo Câmara (PSB), de Pernambuco.

O Nordeste é a região do país mais refratária aos encantos do ex-capitão. Na semana passada, ele atacou outro governador, Flávio Dino (PSB), do Maranhão, chamando-o de gordinho.

Por tabela, irritou os que lutam contra a balança. Xô votos!

Artigo originalmente publicado no Blog do Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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