Sopa de letrinhas

Bolsonaro e suas nove filiações partidárias personificam a barafunda do sistema.

Imagem: Jornal Metropoles.com

Jair Bolsonaro se filiará ao PL de Valdemar Costa Neto, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro no Mensalão do PT. Será seu nono partido desde 1988, quando se elegeu vereador do Rio de Janeiro pelo PDC. De lá para cá passou pelo PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e PSL. Por essa última se elegeu presidente, mas também não esquentou a cadeira – ficou pouco mais de um ano. Sozinho, Bolsonaro personifica a barafunda do sistema partidário, no qual as siglas são apenas um punhado de letras sem qualquer significado, boa parte delas criada para dividir o generoso quinhão dos fundos partidário e eleitoral.

Em 2020, nada menos de R$ 934 milhões dos impostos pagos pelos cidadãos foram parar nas tesourarias de 23 dos 33 partidos registrados no TSE. Nove deles acabaram zerados pela cláusula de barreira que vigorou pela primeira vez nas eleições de 2018, e um, o Unidade Popular (UP), não entrou na divisão por ainda não ter registro definitivo. Até outubro deste ano, o fundo partidário de 2021 já tinha esparramado outros R$ 784 milhões. Para o ano que vem a bolada aumenta, somando-se o fundo eleitoral, fixado em R$ 2 bilhões, mas que deve chegar a bem mais do que isso caso o Senado mantenha a imoralidade da PEC do calote dos precatórios, já aprovada em dois turnos na Câmara.

Com tantos milhões legalmente à disposição, não é difícil entender por que partido político é um bom negócio. Já foi melhor quando era possível alugar a sigla em coligações proporcionais e a cláusula de barreira não criava limitações. Ainda assim, continua sendo um investimento atraente. Até porque, diferentemente do dinheiro anual do fundo partidário, o fundo eleitoral, pago a cada dois anos, não exclui partidos sem representação. Eles recebem no mínimo 2% do total mesmo que não tenham elegido um único vereador, deputado ou senador.

Na ponta do lápis, um fundão de R$ 2 bilhões despeja pelo menos R$ 4 milhões na conta dos donos de cada legenda, independentemente do tamanho dela. Não à toa há 84 siglas em formação na lista do TSE. Mesmo essenciais à democracia, até analfabetos políticos sabem que a solução não está em tantas combinações de letras e tantos bilhões para financiá-las.

Nos partidos com bancadas maiores e, consequentemente, recursos mais fartos, a rinha de quem manda no dinheiro costuma ser braba. Bolsonaro queria um partido para chamar de seu. Tentou sem sucesso criar o Aliança pelo Brasil, cuja solicitação de registro continua ativa, mas com apenas 155 mil signatários. Procurou outros menores para ser dono, e nada. Acabou casado com Costa Neto, que não costuma abrir mão do controle, quanto mais de recursos financeiros, o que aponta para tempos futuros difíceis na relação com o capitão.

Com a maioria movida pelo dinheiro e poucos por ideologia, vários partidos têm serventia avessa ao que deveriam. Em vez de abrigar ideias, brigam por tamanho de bancadas que podem aumentar a força e a grana. E vale tudo para atrair parlamentares para engrossar as fileiras.

Assim, não são poucos os políticos à la Bolsonaro, que vivem pulando de galho em galho. Aliam-se ao adversário, votam contra o afiançado em campanha, se lixam para o eleitor. Mais do que o voto recebido, o que vale para essa turma é o voto futuro e o quanto terá para angariá-lo.

O União Brasil, junção do DEM ao PSL, por exemplo, era um arranjo impensável para quem depositou votos contra o partido que abrigava Bolsonaro.

Na prática cotidiana, nem as legendas ditas ideológicas e programáticas se salvam. Como explicar aos eleitores do PT a aliança espúria com bolsonaristas do naipe de Bia Kicis (PSL-DF) na votação da PEC da Vingança, que reduzia o poder do Ministério Público? E aos do PDT e do PSB que viram integrantes de suas bancadas fazerem o jogo de Bolsonaro no primeiro turno da PEC do calote? E como fica o eleitor do PSDB ao ver a maioria de seus representantes irem contra a responsabilidade fiscal, âncora do programa tucano, votando pelo destelhamento definitivo do teto de gastos?

Não há chances de alterar o descrédito e a percepção demonizada que o cidadão tem da política se parte de seus atores insiste em emporcalha-la. Mais do que resistir, os que não pertencem a esse time têm de impedir que absurdos como mensalões, orçamento secreto, tratoraços e todo tipo de benesses e mimos dominem a cena.

Como inexiste democracia sem política e sem partidos, ao eleitor cabe separar o trigo do joio. E, acreditem, no meio de tanto joio há trigo.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 14/11/2021.

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