3 de março de 2024
Colunistas Mary Zaidan

O bom filho

Lula diz que vai seguir o conselho da mãe analfabeta e só gastar o que tem ou ganha

Seja devido aos últimos anos de desgoverno ou pela bem-vinda ausência de Jair Bolsonaro no pós-eleição, Luiz Inácio Lula da Silva já é presidente. Nem diplomado, nem empossado, mas presidente de fato, reconhecido no mundo e cobrado no Brasil como tal. Incensado por seus acertos, a exemplo do discurso de estadista na COP27, e execrado pelos erros, como os de contrapor controle fiscal ao combate à pobreza – discurso amenizado por ele em Portugal – ou de pegar carona de jatinho com um amigo do setor privado. Como ele próprio concluiu em terceira pessoa no discurso da vitória, Lula não pode errar.

Ainda que não tenha cometido qualquer crime, Lula pisou no tomate ao aceitar o mimo do jatinho para o Egito. Abriu flancos para seus detratores, permitindo que a besteira aérea turvasse o brilho de sua primeira incursão internacional depois de eleito. E esmagou todo o tomateiro ao reincidir no descaso com o teto de gastos, instrumento que todos sabem destelhado e inexistente, mas que tem forte simbolismo.

Com críticas juvenis a banqueiros e ao mercado, recheada de velhos chavões que só servem para alegrar alguns nichos da esquerda, Lula perdeu tempo e gastou a paciência de aliados sérios que apostam fichas e se esforçam para o sucesso do novo governo. Consertou-se no dia seguinte, durante entrevista em Portugal, mas deixou no ar uma ciclotimia perturbadora. Não só para a ala financista do mercado – esse ser onipresente e indecifrável, que, por essência, adora uma especulação -, mas para a economia real, o dia a dia.

Mesmo desnecessária e inconsequente, sua artilharia contra o controle de gastos tem sido vista por alguns como positiva. Embora pareça presidente, Lula ainda não o é. Uma condição peculiar e única – não haverá outro momento depois de janeiro de 2023 – que o permite mexer no eixo de equilíbrio entre a segurança fiscal e o investimento social. Em resumo, esbraveja agora para colher frutos à frente. Com responsabilidade fiscal, garantem os defensores dessa linha, o vice Geraldo Alckmin entre eles.

Lula conseguiu reunir em torno de si um círculo diverso e espetacular de competências. Sua equipe de transição, questionada por ter mais de 300 integrantes – 50 nomeados e os demais voluntários – é de uma pluralidade invejável, a ponto de muitos duvidarem dos resultados do trabalho a ser desenvolvido. Difícil imaginar que ele vá prescindir desse apoio farto por vaidade ou acessos de populismo. Tanto que reagiu com excelente bom humor à carta-pito dos economistas Pedro Malan, Edmar Bacha e Armínio Fraga, integrantes do grupo da economia na transição: “Eu sou um cara humilde e gosto de conselho. Se o conselho for bom, pode ter certeza que eu sigo”. Embora humildade não seja propriamente uma das facetas do petista, registra-se a intenção do dito.

É claro que com mais de três centenas de cabeças, as propostas dificilmente serão consensuais, e nem têm a pretensão de ser. Esses grupos continuarão a existir durante o governo, a fazer pressão, tentar, legitimamente, influir. Nos limites da transição o que importa é saber se no batente pesado há técnicos se dedicando ao dever de casa: a análise do descalabro deixado por Bolsonaro na máquina pública.

Pelos primeiros resultados, tudo indica que sim. Para além da PEC para garantir o pagamento do Bolsa Família de R$ 600, o auxílio adicional de R$ 150 por criança e o reajuste do salário mínimo, há avanços significativos nas áreas de Segurança Pública, com o anúncio do “revogaço” dos 40 decretos e portarias pró-armas de Bolsonaro, alguns suspensos pelo Supremo desde abril. Isso vale também para o Meio-Ambiente, bombardeado por redução de poderes de fiscalização e limitações de participação da sociedade civil. Tudo, é claro, correndo em paralelo com a fogueira de vaidades dos que querem ser ungidos ao primeiro escalão – algo nada excepcional, e sim corriqueiro em qualquer transição de governo.

Quanto a Lula, o melhor mesmo foi saber que, como bom filho, ele não pretende ressignificar, para usar a palavra da moda, a lição da mãe analfabeta: “a gente só pode gastar o que a gente tem ou ganha”.

Fonte: Blog do Noblat

Mary Zaidan

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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