Governo de desunião nacional

Pregar unir o país em torno de Bolsonaro é mais do que um acinte. É sem-vergonhice.

Unir forças para domar crises é um apelo reincidente de governantes. Em tese, crê-se que a soma de esforços e sacrifícios de todos resultará em ganhos para a coletividade. Por aqui, há tempos esse pressuposto é balela. União nacional tem sido capa de proteção para políticos em desespero, não rara utilizada para detonar inimigos, tratorar incômodos. No governo do presidente Jair Bolsonaro, no qual só a discórdia prospera, pregar união é mais do que um acinte. É sem-vergonhice, desfaçatez, safadeza.

O papo-furado de unir forças dominou as recentes entrevistas do ministro das Comunicações, Fábio Faria, na tentativa de dar um restart no chefe quanto à péssima gestão da pandemia. Na saída do jantar com empresários simpáticos ao presidente, Faria insistiu na tecla, como se lá dentro Bolsonaro não tivesse acabado de desancar o governador paulista com palavrões, xingando de vagabundo quem, via Butantan, fornece 80% das vacinas que o Ministério da Saúde distribui.

As vacinas cuja eficácia Bolsonaro desdenhou, deixou de comprar em meados do ano passado, e disse que não compraria se fosse a chinesa do Doria, foram eleitas como o ponto de união. A ideia era – e ainda é – grudar uma máscara em Bolsonaro e colocá-lo como garoto propaganda da imunização. A partir daí, conclamar a união do país em torno do presidente para erradicar a peste e a crise.

Mas como na cartilha bolsonarista unir não é agregar e sim dominar, a estratégia, assim como o presidente, é desmascarada diariamente.

Clama-se pela união, mas o que se quer é desqualificar críticos, promover o esquecimento dos absurdos administrativos, como o investimento bilionário em cloroquina e o abandono até o vencimento de kits de testes, do descaso com mortos e doentes, das falas negacionistas. Quer-se união para passar a borracha na “gripezinha”, no “país de maricas”, na incompetência e na desumanidade do presidente, incapaz de se comover com os mais de 350 mil mortos, com profissionais de saúde exaustos, hospitais em agonia, falta de medicamentos.

A tal da união de forças também foi o argumento do presidente do senado Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para retardar a abertura da CPI da pandemia. Um raciocínio peculiar, para não dizer para lá de torto, que pressupõe abrir mão de fiscalizar a atuação do governo federal na pandemia em nome de combater a pandemia.

Parece ironia barata, troça de mau gosto com os brasileiros. E é.

Dois meses depois de ser requerida, a CPI deve ser instalada contra a vontade de Pacheco, cumprindo determinação liminar do ministro Luís Roberto Barroso a ser apreciada pelo plenário do STF na quarta-feira, 14.

]A reação de Bolsonaro à decisão de Barroso escancarou o temor que tem de ser investigado. Com o seu habitual destempero, mais uma vez expôs a verdadeira campanha à qual se dedica com afinco: a de destruir as instituições, apostar na desunião nacional, provocar o caos.

Esbravejou aos quatro cantos. Sugeriu a abertura de impeachment contra ministros da Corte, acusou o magistrado de “falta de coragem moral” por não ter a mesma atitude quanto à CPI conhecida como Lava-Toga, como se o STF pudesse agir sem ser provocado para tal.

Sua ira ganha em desproporção diante do apoio dado a um recurso semelhante para que fosse instalada a CPI do “apagão aéreo”contra o PT de Lula, em 2007, cuja ação no STF teve assinatura do então deputado Onyx Lorenzoni, amigo fiel e hoje ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. À época, o também deputado Bolsonaro elogiou a vitória obtida no Supremo. Não considerou como interferência de Poder, muito menos “politicalha”, termo usado pelo presidente para agredir Barroso.

O governo Bolsonaro não é o primeiro a se utilizar do apelo à união nacional para tentar se safar. José Sarney o fez depois dos reveses dos seus fiscais contra uma inflação incontrolável. Collor de Mello e Dilma Rousseff tentaram de forma patética convocar o país para se unir a eles e acabaram apeados do Planalto. E o pacto nacional de Michel Temer naufragou nos diálogos gravados por Joesley Batista na garagem da residência oficial da vice-presidência.

Mas é o único presidente que se diverte em plantar e alimentar a cizânia contradizendo seus interlocutores oficiais. Enquanto o seu quarto ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tenta angariar apoio na comunidade médica, defende o uso de máscaras e até o distanciamento social, odiado pelo chefe, Bolsonaro aumenta o tom contra governadores e prefeitos que mantêm restrições de circulação. Passeia sem máscara e prefere apoiar pastores evangélicos a preservar vidas.

Age como se fosse possível agradar à tropa cega de fiéis, que venera seu negacionismo, e, ao mesmo tempo, livrar-se da alcunha de genocida.

Muitos países com líderes de verdade conseguiram arregimentar esforços para debelar crises gravíssimas, superar reveses de guerras, fomentar condições para que seus cidadãos invertessem espirais de fome, desemprego e desesperança. No Brasil, isso só será possível sem Bolsonaro. Passa da hora de reunir forças contra ele.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 11/4/2021.

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