24 de maio de 2022
Colunistas Mary Zaidan

Como o diabo gosta

Bolsonaro, parcela dos parlamentares e até do STF parecem ter encarnado o capeta.

No período que antecede a mais importante comemoração do calendário cristão quem faz a festa é o diabo. Afiados, emissários do coisa-ruim aceleraram o disparo do arsenal de maldades, não raro em nome de Deus – e dos pobres.

Isso vale para a aprovação pelo Congresso do fim do teto de gastos e da PEC do calote dos precatórios, que injetam mais de R$ 100 bilhões no projeto de reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Tudo decidido em votação célere, com apoio de parte da esquerda sob a desculpa falaciosa de que o cano em processos transitados em julgado, inclusive alimentares – salários, pensões, aposentadorias -, estaria sendo dado para financiar o Auxílio Brasil de R$ 400, outra moeda eleitoral, que, como é sabido, poderia ser custeado a partir de outras fontes.

Mas é apenas um pedaço do pacote do belzebu. Na sexta-feira, governistas em peso e parcela da oposição restabeleceram os indecentes R$ 5,7 bilhões para financiamento das campanhas eleitorais, valor que havia sido vetado por Bolsonaro. Com isso, não só garantiram mais bufunfa para as campanhas como deixaram o presidente na confortabilíssima posição de dizer que tentou, mas nada pôde fazer diante da vontade parlamentar. De novo, papo furado do tinhoso, visto que o presidente e sua turma não mexeram uma única vareta para manter o veto.

Com aval do STF, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, deram um jeitinho de manter o absurdo orçamento secreto. E para fechar a semana, capitanearam uma negociação de envergonhar até o capeta: as igrejas ficaram isentas de IPTU de imóveis alugados em troca do apoio da bancada evangélica à urgência para a votação da liberação dos jogos de azar.

Em todos os casos, a conta vai para o pagador de impostos, pesando no bolso já vazio da população empobrecida quando não faminta diante do desgoverno Bolsonaro.

Mas o Congresso está longe de ser a principal morada de satã. Há muito suas garras dominam o Planalto, onde Bolsonaro dedica-se diuturnamente a destruir todas as organizações de Estado – educação, saúde, meio-ambiente, cultura…A gaveta do procurador-geral Augusto Aras, onde repousam ad eternum dezenas de “investigações preliminares” sobre crimes cometidos pelo presidente, cheira enxofre.

Mesmo no STF, que por vezes tem sido o santo contra vários males, os diabretes comemoram. Em especial na Segunda Turma, na qual os processos relativos à corrupção de poderosos caem como dominós enfileirados. Os últimos beneficiários das anulações em série foram o filhote do presidente, senador Flávio Bolsonaro, e, ainda que seja pouco crível, o multi-bandido Sérgio Cabral, que, mesmo com a condescendência pontual, ainda tem condenação de uma centena de anos.

Antes, em um outro pacto com o demo, o Supremo já havia detonado a Operação Lava-Jato, livrando Lula dos processos que o levaram à prisão. Não por inocência, mas por tecnicalidades de foro e por suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, que até parece procedente, mas colhida por meio de vazamentos que não podem ser considerados como provas lícitas.

Nessa trama diabólica, daqui a pouco os participantes dos esquemas de corrupção engendrados para manter o Estado sob domínio do mal vão querer de volta os milhões devolvidos ao erário em acordos de delação.

Mas como dizem que Deus é brasileiro, nem tudo está perdido. Há sopro do bem quando se vê o trabalho e os resultados da CPI da Pandemia ou a reação forte do Parlamento e do STF às nefastas tentativas de Bolsonaro e dos seus de fazer o país andar para trás. Quando a democracia fala mais alto do que o berrante do autoritarismo.

Exemplos não faltam. Mesmo diante da posição de Bolsonaro, que tudo fez em favor do vírus, quase 70% da população está vacinada contra a Covid-19, e o SUS, com equipe técnica invejável, sobrevive firme aos bombardeios que sofreu. As ameaças, até de morte, feitas aos dirigentes da Anvisa não arrefeceram o ânimo da agência de colocar a ciência acima da politicagem. Não se conseguiu armar amplamente o povo nem calar a imprensa. O golpe de 7 de setembro falhou e a tentativa de desacreditar as urnas eletrônicas caiu no vazio.

Mas o diabo é persistente. Exige exorcização diária.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 19/12/2021.

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Jornalista, mineira de Belo Horizonte, ex-Rádio Itatiaia, Rádio Inconfidência, sucursais de O Globo e O Estado de S. Paulo em Brasília, Agência Estado em São Paulo. Foi assessora de Imprensa do governador Mario Covas durante toda a sua gestão, de 1995 a 2001. Assina há mais de 10 anos coluna política semanal no Blog do Noblat.

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