23 de maio de 2022
Joseph Agamol

Gratidão. (Não, não é um texto fofinho)


Eu normalmente implico com essa palavra.
Aliás, não com a palavra em si mas com seu uso indiscriminado e fulanizado.
Tem gente que usa “gratidão” como, sei lá, ponto e vírgula.
Tá fazendo sol? “Gratidão”.
Refrescou? Segura um “gratidão” aí.
Deu bom dia? Toma uma voadora de “gratidão”!
Foi dormir? Receba um “gratidão” na caixa dos peitchos!
Entendem minha implicância?
Mas não é dessas gentes que usam “gratidão” como sal na comida que quero falar.
Quero falar da gratidão real.
E sobre como sua ausência, que parece endêmica no povo brasileiro, é um dos problemas que precisamos superar.
Isto se desejamos deixar para trás no ranking civilizacional sociedades que ainda furam os beiços e andam de tanga.
E, como exemplos, quero falar de Bolsonaro e Olavo de Carvalho.
“Ah, não!”, dirá um leitor mal humorado, “não gosto quando você fala de política! Vai garatujar seus poemas, pô!”.
Alguns leitores são assim: quando falo de política, pedem para eu escrever minha prosa poética – nem poemas costumo escrever.
Quando escrevo poesia, pedem minhas histórias de terror e violência à la Tarantino.
Quando escrevo meus pulp de vampiros e lobisomens, dizem que eu devia falar só sobre política.
Quando estou com a auto-estima lubrificada, acho isso divertido: ninguém se entedia aqui e eu tenho horror de gente monotemática.
Quando acordo me sentindo uma barata kafkiana, acho um sinal de que tudo que escrevo é uma mistura de guano de morcego com estrume de gnu.
Já parou de rir? Então ‘bora voltar pro texto que é sério, pô!
Antes das eleições discuti com uma antiga amiga de esquerda: ela dizia que não votaria em Bolsonaro porque ele é _____________ (insira aqui o insulto de sua preferência: racista, machista, enfim, toda aquela xaropada que a gente já sabe).
Eu disse, candidamente, que respeitava sua decisão e perguntei em quem ela votaria.
Resposta: o coroné-cangaceiro 2.0.
Eu quase cai pra trás, de olho rútilo e babando em uma inexistente gravata, como um personagem do Nelsão.
Ainda tentei argumentar: mas o cara é tudo isso aí que você disse ser contra! Representa todos os motivos pelos quais você afirmou sua ojeriza ao Bolseiro!
Ela respondeu com aquela retórica manjada: ain, você tem que ver o contexto de algumas declarações, você tem que ver que as pessoas mudam, você não sabe disso?! Seu feio! Fascista!
Pois é. Em nenhum momento ela pensou em ver o contexto de alguma fala tosca do Bolsonaro ou jamais concedeu a ele o direito à evolução pessoal. Sacumé.
Citei essa história porque eu não nego que o presidente vacila em algumas declarações. Concordo que deveria pensar mais antes de falar. Avaliar o impacto do que diz.
Porém, isso não impede que eu seja grato a esse cara: quando penso no caminho sem volta para o qual o Brasil estava sendo direcionado, e indo docilmente, e do qual não está ainda totalmente livre, eu sou agradecido.
Eu experimento gratidão.
O mesmo princípio se aplica a Olavo de Carvalho.
Virou esporte nacional afrontar o velho em suas páginas pessoais. Se duvidam, vão lá em seu Twitter ver.
É algo similar ao que ocorre nas páginas do presidente, do ministro Moro e de integrantes destacados do governo.
Palavrões dignos de zona do baixo meretrício do Rio de Janeiro no início do século XX, ofensas gratuitas, achincalhes.
O ódio em seu estado mais puro – se é que se pode falar em pureza no que tange a sentimentos tão nefastos.
Não concordo com o professor Olavo em tudo – amo os Beatles e simpatizo pacas com os ursinhos americanos, por exemplo.
Mas jamais deixarei de ser GRATO por, há mais de 20 anos, o velho ter pego uma pá virtual e ter cavado uma sólida trincheira intelectual contra os avanços dos inimigos da Liberdade no Brasil e no mundo.
Posso não concordar com TUDO que o Bolseiro ou o professor dizem, escrevem e fazem. E não concordo mesmo. Não com tudo.
Mas sou grato pelo que fizeram e fazem e por suportar uma carga tremendamente pesada nos ombros – e principalmente na ALMA.
Gratidão.
É DISSO que estou falando.
No final, acabou virando um texto fofinho. Que droga.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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