Frido

Frido conferiu a mochila: tudo que poderia precisar estava lá. Sachês aromatizados de álcool em gel com hidratante, três garrafinhas de água fervida e posteriormente congelada, antisséptico em spray que não arde, bilhete múltiplo do metrô para evitar filas com gente suarenta, as havaianas com aplique para a volta para casa… tudo pronto. Suspirou. Partiu protesto.

Desceu as escadarias do metrô da Santa Cecília, torcendo o nariz para o bodum que infestava o lugar, se preparando mentalmente para as multidões irmanadas que estariam lotando os vagões: seus irmãos da revolução que se faria, inexorável.

A plataforma estava vazia. Conferiu seu Smart Watch – antes de guardar na mochila, afinal, expropriação tinha limites, gente: será que chegara cedo demais? Impossível: ele conferira o horário mil vezes antes de sair, enquanto passava a ferro a camisa cuidadosamente rasgada para simular um battle damaged.

Entrou e sentou em um dos bancos. Vazio. Sim, saíra cedo demais. Era a única explicação. Ou se atrasara. Quando emergisse, triunfal, do túnel, seria recebido pelo urro quase erótico da multidão, aquele ser orgânico e desperto, seria envolto pelos torsos musculosos do proletariado, finalmente, em seus anseios de liberdade e…

Despertou desse doce devaneio com a voz robótica avisando que tinha chegado ao Trianon. O coração acelerou. Era chegada a hora de fazer história. Suspirou de novo. Isso não era bom. Estava ficando suspiroso demais. Até sua mãe tinha notado, e dito, zombeteira:

  • para de suspirar, Frido! Parece a droga de uma princesa da Disney!

As portas se abriram. Ele abriu os braços, como Audrey Hepburn em “Sabrina”. Reprimiu essa manifestação burguesa. Subiu, lépido, a escadaria, mas parou para não ficar suado demais: queria se destacar na cobertura jornalística, em meio ao povão que o abraçaria. Conteve uma lágrima. Emergiu na Paulista, esperando o clamor e… nada.

Para não dizer que não havia ninguém, ninguém, havia um vira-lata caramelo fuçando as latas da Starbucks. Caminhou pelas ruas desertas, quase como em um Carnaval antigo em São Paulo. Recusava-se a desistir. O protesto deveria ter sido transferido para um lugar capaz de acomodar melhor a massa. Desfraldou a bandeira, orgulhoso, sentindo o mastro rugoso acariciando sua mão. Avistou, ao longe, um trio elétrico. Sim, ali estariam os líderes da manifestação. Firmou o olhar. E o que viu o fez murchar. Fenecer. Enrolou a bandeira, apenas o mastro peroboso proporcionando algum consolo. Na volta para o metrô, um trombadinha quase levou seu iPhone 12 Pro Max.

Suspirou. Que droga.

Notícias Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *