23 de maio de 2022
Joseph Agamol

Chico Buarque e a mente esquerdista


Eu normalmente já implico com o, para mim, superestimado Chico, sua voz choro-lamentosa e sua cara santarrona de caju-banana.
(Não concorda? Beleza. Vá lá em seu perfil e escreva um texto laudatório sobre Chico. Garanto que não vou encher seu saquinho, viu?)
Alias, como o cara envelheceu mal, não? Dizem que uma das vantagens de ser feio quando jovem é que, ao envelhecer, ninguém nota diferença. Em alguns casos fica até melhor! Mas o Chico…
Enfim. Eu dizia que implico com o Chico.
Deixo claro que aprecio algumas de suas composições, mas há outras, como “Brejo da Cruz”, por exemplo, que me fazem correr para tomar uma magnésia bisurada.
Há um trecho específico dessa obra – já em si uma forçação de barra fonética, onde o “poeta”, na falta do que rimar, encaixa “blues” com “luz” – que me faz ficar com uma pálpebra tremendo a cada vez que tenho o desconforto de ouvir.
No entanto, é um trecho bastante didático no sentido de explicar como funciona a mente esquerdista.
É esse aqui, ó:
“A novidade que tem no Brejo da Cruz
É a criançada se alimentar de luz (…)
Uns tem saudade e dançam maracatus”
Só na cabeça de um cara totalmente desconectado da vida como ela é – licença, Nelsão – como Chico Buarque, é que meninos pobres, para aplacar a saudade que sentem, dançam maracatus.
Típico da mente esquerdista que idealiza a pobreza e tenta encaixá-la em seus moldes pré-estabelecidos de mundo.
Para esquerdistas riquinhos, mimados e que carregam culpas inconscientes por isso, a pobreza está ali, inocente como o bom selvagem de Rousseau, aguardando que a elite letrada – da qual Chico é o sumo-sacerdote, o dono da zorra toda – venha tirá-la do obscurantismo.
Na mente em branco e preto, no máximo cinza, de Chico, incapaz de enxergar as nuances do real e presa em algum ponto dos anos 60, os pobres são ainda campônios chucros, que devem ser alfabetizados por Paulo Freire para no máximo poder integrar as Ligas Camponesas de Chico Julião.
Apenas e tão somente em uma mente esquerdista, os meninos da periferia sentem saudades de maracatus, em vez de decorarem – e dançarem – as letras dos funks proibidões de uma ou de outra facção.
Ah, e last but not least – eu não consigo separar o autor de sua obra. Mim julguem.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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