A Era da Pobreza


Não, não me refiro à pobreza sócio-econômica. Até porque algumas pesquisas recentes parecem indicar que, em termos globais, a pobreza efetivamente diminuiu.
Evidente que ainda existe miséria, e miséria extrema, em algumas porções do planeta, mas, de modo geral, vivemos mais e melhor do que nossos antepassados.
(Ou você acha que Luis XVI, o Rei-Sol da França, ícone e ápice do poder absoluto e da riqueza dos reis, tinha ar-condicionado, Netflix e papel higiênico aveludado?)
Portanto, quando afirmo que vivemos A Era da Pobreza, me refiro à outra coisa.
Agora cedo fui à padaria tomar um café e estava tocando “Lance Legal”, uma canção do Guilherme Arantes.
Nunca fui grande fã do Guilherme mas o que me chamou atenção foi:
1 – ele tocava – e muito – nas rádios, no final dos anos 70 e por todos os 80;
2 – suas músicas continham arranjos elaborados, com uma boa tessitura harmônica – papo de músico, eu sei – melodias bacanas e letras palatáveis;
Guilherme Arantes é só um exemplo da música que era consumida há uns trinta anos. Outros tantos eram do mesmo nível ou melhor. Vocês devem lembrar de uma penca deles.
Ney Matogrosso. Angela Ro Ro. Vinicius Cantuária. Belchior. Zé Ramalho. Luiz Melodia.
No entanto, a julgar pelo padrão que ouvimos hoje, parece que esses caras tocavam no rádio na época em que nossos ancestrais ergueram os traseiros peludos do capinzal da savana e olharam em volta para ver se escapavam de virar brunch de leões gulosos.
O processo de erosão do cardápio musical oferecido ao povo brasileiro pode ser expandido para a cultura como um todo:
Se, na mesma época citada, as pessoas liam Machado de Assis, Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, para citar só três nomes, hoje leem – quando leem – obras de youtubers famosos, crônicas de astros globais ou análises políticas de humoristas.
O cenário é de pobreza extrema. Um deserto de ideias, como disse o Caio Coppola.
Alguns desertos surgem naturalmente.
Outros por ação do homem.
Alguém tem dúvidas sobre quem foram os artesãos da nossa pobreza?

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