14 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Sobre os fogos

Há muitos anos eu tive um cachorro. Sim, tive. Não era tutor ou sei lá o que. Na época chamava-se “dono” mesmo. Enfim. Tive um cachorro. Aliás, “cachorra”. Chamava-se Kelly. O que nos faz situar os fatos que vou citar entre os anos de 1977 e 1980, que foram o auge do seriado “As Panteras” no Brasil. Kelly era uma das panteras, interpretada por Jaclyn Smith. Era minha favorita, aliás, junto com Kate Jackson.

Kelly, a minha Kelly, era uma pointer enorme – aquele cão de caça caracterizado por apontar a localização da presa. Desde pequenina, nas noites de 31 de dezembro, ela se enfiava em um buraco embaixo do velho tanque de lavar roupa, um negócio feito de pedra bruta. E lá ficava até os humanos concluírem sua estúpida diversão sazonal.

Tudo bem enquanto Kelly era uma filhotinha. À medida que se desenvolvia, tornou-se um animal grande, não tanto quanto um pastor alemão, outro cão da moda da época, mas ainda assim grande o bastante para quase entalar debaixo do tanque – tivemos que aumentar o buraco para tirá-la de lá, uma vez. Ficaram lascas de pedra, nas quais ela às vezes se feria.

Toda essa conversa é só para dizer o quanto eu abomino esse hábito tolo, estúpido e zero divertido que é a queima de fogos. Desde garoto esse desamor só aumenta. Já tentei entender, juro. Gostar das luzes no céu é uma coisa – mas o som ensurdecedor dos fogos é bem diferente. Maltrata não só os bichos, mas idosos, bebês, pessoas doentes, enfim…

E hoje, só piora, na medida em que os panacas proliferam como moscas, e soltam fogos por dá cá aquela palha: quando o time ganha, quando o adversário perde, em celebrações políticas… podem crer que, a cada ocasião boboca, haverá um animal humano para soltar fogos.

Eu tenho um “lugar de fala” adicional para odiar essa prática já o bastante odiosa: no Rio, quando o Rio começou a descer a ladeira de patins no sentido de deixar de ser a cidade maravilhosa, aos estampidos dos fogos vieram se juntar os sons dos disparos de armas de fogo efetuados pelos doravante novos donos da cidade – situação que perdura até hoje, infelizmente.

Sei que alguns dirão que é “mimimi” de minha parte: infelizmente, virou uma espécie de moda grotesca pessoas que se auto-denominam “conservadoras” ou “de direita” tripudiarem de pautas ligadas à natureza e/ou defesa dos animais.

À essas criaturas de almas sombrias, lembro que o Criador nos entregou o planeta e todos os seres que nele vivem para que sejamos, também, seus guardiões, com respeito e verdadeira humanidade.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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