23 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Quero ver você não chorar

YouTube

Em 1971, eu tinha 6 anos. Acreditem: lembro de várias coisas dessa idade. O Brasil tricampeão em 1970, por exemplo. Vi os adultos assistindo algo na TV, ouvi os gritos. Nada daquilo me interessava, então fui para a rua, no bairro de Higienópolis, zona norte do Rio. Olhei para o céu e, mesmo sendo dia, estava coalhado de balões.

Essa é uma das minhas lembranças mais antigas – mas não a única. Não a única.

Com dezembro, por exemplo, chegavam os especiais de Natal – Roberto Carlos, claro, mas lembro com carinho o “Natal da Turma da Mônica”. Era uma animação bastante rudimentar, provavelmente a primeira de Maurício de Souza, exibida em 1976 – termina com a clássica canção “Feliz Natal pra todos, feliz Natal”. Eu assisti na estreia, e nas muitas vezes em que foi exibido depois. E quanto mais o tempo passava, mais bonito o desenho então tosco se tornava.

E aí chegamos ao ponto do título do texto: em 1971, o extinto banco Nacional lançou um comercial com uma canção que se tornou, talvez, a mais clássica das canções de Natal brasileiras. Teve outras versões, mas a original, com o coral de crianças e o maestro – Mauro Gonçalves, que se tornaria famoso como o Zacarias, de Os Trapalhões – é, sem dúvida, a melhor e absolutamente inesquecível.

Nem sei exatamente porque escrevo essas coisas, talvez apenas cumprindo minha missão de guardar as memórias e contar as histórias, em um mundo que se liquefaz rapidamente a cada dia. Não é fácil para mim conjurar o portal e entrar rumo aos anos 70 – nunca foi, e, a cada vez que viajo, fica mais difícil retornar. Talvez alguns de vocês saibam do que estou falando. Mas é uma missão, ou ao menos sinto assim.

Lembrar aos que estão aqui que o mundo não foi sempre áspero, sujo, cinzento e depressivo.

O mundo já foi um lugar de doçura e sutileza, de beleza e suavidade, com balões colorindo o céu pálido de junho e crianças esperando pelo Natal da Mônica – e cantando.

Quero ver você não chorar.

P.S. Para quem quiser arriscar, o comercial do banco e a animação da Turma da Mônica estão nos primeiros comentários.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *