3 de março de 2024
Colunistas Joseph Agamol

Quando começou a tradição de enfeitar as ruas para a Copa do Mundo, eu tinha 17 anos

Foi em 1982. E, como em quase tudo que acontece em termos de mobilização popular nesse país, foi inteiramente espontâneo. Orgânico, como se virou moda dizer. Lembro que havia uma imensa expectativa sobre a participação brasileira na Copa da Espanha, após os fracassos da seleção em 1974 e 1978. Uma novíssima geração de craques, quase todos em sua primeira Copa do Mundo, ajudou a criar esse clima.

Lembro também que minha rua recebeu a visita da jornalista mais popular da época, a bela Leila Cordeiro, que foi vistoriar nossa principal ornamentação: uma imensa bandeira brasileira, instalada no maior muro da vizinhança.

Como eu disse, era tudo espontâneo. Não havia preocupação de disputar algum prêmio – até porque não existia. Anos mais tarde, o sistema contra-atacou – ele sempre contra-ataca – criando uma competição formal, com regras, estatuto, premiação. Sugiram patrocinadores. Equipes. Lideranças. Perdeu a graça. Para mim, pelo menos. Nos anos seguintes a tradição se manteve, embora definhando pouco a pouco, ao menos no que tange àquela participação efetivamente popular, de geração espontânea.

Mas, mesmo considerando que o ato de enfeitar as ruas para a Copa perdeu força, eu nunca vi nada semelhante ao que se vê esse ano. Uma quase total indiferença, quebrada apenas pelo feroz antagonismo gerado por aquilo que, apenas alguns anos antes, era um ingênuo fator de união nacional.

O veneno disseminado pelos líderes das ideologias revolucionárias, que fincaram suas presas em nosso país, a partir dos anos 60, se disseminou de forma tão eficiente que o Brasil não apenas se deixou contaminar por inteiro: a estrutura da nação brasileira, fragilizada pelo potente agente toxígeno, ficou comprometida – e, hoje, partiu-se. Temo que a fratura não poderá ser consolidada, não em uma ou duas gerações.

Mas eu ainda espero um futuro no qual, em algum subúrbio de uma grande cidade ou no interior mais profundo, alguns meninos se reúnam para comprar tintas e bandeiras, para enfeitar seu bairro, e torcer por um único país – e um país único.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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