3 de julho de 2022
Colunistas Joseph Agamol

Pingo de leite

Foto: Mick Rock

Era o nome do meu doce preferido, quando eu era o menino de Bonsucesso, zona norte do Rio, muito antes daquele tira malvado, o Tempo, começar a rondar por perto.

Eles formam uma dupla, vocês sabem, como num filme da Hollywood vintage: o Tempo faz o policial durão – e a Memória o tira bonzinho, aquele que propõe um acordo e diz que tudo vai ficar bem, filho.

Eu era o senhor do meu quarteirão, ali compreendido entre a Paróquia Nossa Senhora do Bonsucesso, na rua general Galiene, e o campinho do Bonsucesso Futebol Clube, na Teixeira de Castro. Foi no tempo do Zico: eu era o senhor do meu quarteirão, ainda acreditava que meus ossos eram de titânio e meu sangue era vampírico, e que eu seria para sempre jovem, um Dorian Gray sem retrato, no tempo em que Michael Jackson era feliz, Elvis ainda era o Rei nessa dimensão e piloto bom era Fittipaldi, Jackie Stewart e Niki Lauda.

O pingo de leite era só para o que minhas moedinhas davam, eu comprava dois, três, no máximo quatro, e descia as ruas úmidas do meu antigo Rio com os bolsos cheios de felicidade, até chegar à casa, onde um dia meu vô viu assombração.

Todo esse deslizar pelos salões, ora imersos em neblina, ora iluminados como uma festa junina dos anos 70, do Tempo e da Memória, se desencadeou, como um flash de um filme de Tarantino, por uma insuspeita colherada de um doce de leite que provei hoje. Não, não era igual aos pingos de leite que um menino, que um dia se achou rei do Tempo, comia.

Mas foi o acordo que o tira bonzinho, a Memória, me ofereceu.

E eu, agradecido, aceitei.

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Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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