23 de abril de 2024
Colunistas Joseph Agamol

As tais coisas que deixamos pelo caminho

Em meados dos anos 90, provavelmente 1994, eu já não era mais um guri – mas ainda não tinha chegado à casa dos 30, e meus encontros com o Sr. Tempo foram discretos e esparsos.

Lembro de um, quando comecei a usar óculos, e a atendente da ótica me disse que em uns três anos eu teria que trocá-los. Em tom zombeteiro, eu disse algo sobre como iria demorar a passar.

No banco ao lado, até então despercebido por mim, um senhor, muito bem vestido, até para o sutil inverno carioca, me sussurrou:

– vai passar muito rápido, filho – e você nem vai perceber…

Senti um hálito estranho quando ele falou – mais tarde, bem mais tarde, descobri que era o perfume das eras passadas. Como descobri, e quase caí da cadeira do cinema, quase dez anos depois, quando vi Ian McKellen na pele de Gandalf, no primeiro O Senhor dos Anéis, e reconheci o sacana: era ele, claro, o Sr. Tempo, que me abordara na ótica – e é claro que, quando olhei para o lado, ele não estava mais lá. Esqueci o assunto. Em 1994, eu estava mais preocupado com a seleção na Copa – na época eu ainda torcia, vê se pode.

Mas não era sobre isso que eu ia falar.

Em 1994 ou 1995 a editora Salvat, se não me engano, lançou no Brasil uma coleção de revistas com CD’s, originalmente da editora espanhola Altaya, chamada Mestres do Blues – eram 60 fascículos, cada um com seu disco, e, ao final, você tinha uma biblioteca musical riquíssima, formada por artistas do naipe de B.B. King, Albert King, Freddie King – os três Kings do blues – , John Lee Hooker, Muddy Waters, Eric Clapton e muitos, muitos outros. Qualquer garoto com pretensões musicais podia comprar e aprender com os mestres – ou simplesmente se deleitar com música de excelente qualidade. Em qualquer banca da esquina, a um preço módico. Há 30 anos apenas.

Tudo isso se foi, claro. Quase não há mais bancas de jornal – muito menos jornais. A democrática oportunidade de conhecer, descobrir, se encantar e passar adiante a boa cultura e o conhecimento? Foi deixada pelo caminho.

Hoje, haveria espaço para algo assim? 60 semanas colecionando, construindo, amealhando um patrimônio mais intangível do que sólido, embora muito mais sólido enquanto intangível?

Esquece.

As tais coisas que deixamos pelo caminho, amigos.

E que provavelmente por lá ficarão.

Joseph Agamol

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

Professor e historiador como profissão - mas um cara que escreve com (o) paixão.

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