14 de abril de 2024
Colunistas Fernando Gabeira

Lamentos do Rio

Às vezes, acordo com o barulho de tiros no morro. Sento-me na cama e me pergunto: tiros ou fogos de artifício? Tiros. Volto a deitar seguro: a configuração arquitetônica torna improvável uma bala perdida na minha cama.

Na última semana, a Defensoria Pública do Rio fez um amplo relatório da ação da polícia nas favelas, destinado ao STF. Os dados foram colhidos das câmeras dos soldados.

Foram muitas as abordagens violentas. Instado a comentar o tema, pensei em falar na educação e no equipamento dos policiais. Dei-me conta de que apenas acionava o piloto automático. Com os mesmos recursos, os policiais não repetem sua atuação truculenta nos bairros mais ricos da cidade.

Tudo isso me reforça a sensação de que vivemos numa área protegida do caos urbano no Rio Janeiro, ameaçada apenas por pequenos furtos e alguns assaltos. Grande parte do Rio, talvez mais da metade, está sob controle de grupos armados, milícia ou tráfico. A chegada do poder público simbolizada pela polícia traz mais apreensão e confrontos violentos.

O jovem advogado Rodrigo Crespo foi assassinado no Centro do Rio. Dos três suspeitos, um era da PM, e dois trabalhavam na Assembleia Legislativa. Isso é mais uma demonstração do quadro de coração das trevas: crime, polícia e políticos entrelaçados. Já no passado, o escritório do crime que funcionou no Rio revelou também que um de seus líderes trabalhava num gabinete parlamentar. Tudo indica que o crime organizado no Rio não se limita a produzir recursos por meio da venda de segurança, gás, do transporte em vans e construções irregulares. Emprega também alguns dos seus atores no próprio Parlamento estadual.

O cerco cada vez mais se fecha sobre a área que ainda consegue respirar alguma liberdade no Rio. Em breve teremos eleições, o que me parece mais uma insanidade, no sentido dado à palavra por Einstein: fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.

O Rio continua ocupado por milícias e tráfico, apesar da queda do grupo de Santa Cruz na semana que passou. Mesmo as quedas não conseguem resolver esse problema, pois um novo grupo ocupa o espaço vazio. Não há esperança de que as eleições resolvam o problema, sobretudo num estado com tantos governadores que já foram presos. A possibilidade maior é que voltem à cena políticos que passaram pela penitenciária.

É provável que, no futuro próximo, a área que ainda respira se veja diante de um dilema: resistir coletivamente ou deixar a cidade. Claro que resta ainda a alternativa de nada fazer esperando que o tempo conserte as coisas. Nesse caso, o tempo funciona como uma dimensão mítica que modifica o destino das pessoas sem a interferência delas.

Outras cidades do mundo passaram por esse momento dramático e o superaram. Nova York já pareceu um lugar sem futuro, Medellín, na Colômbia, era tida como território perdido para o tráfico de drogas e assassinos a soldo, os sicários. Com todo o respeito a esses lugares (Medellín conheci depois da morte de Pablo Escobar), nenhum deles tem o perfil paradisíaco da natureza do Rio. A cidade merece uma energia extra para resgatá-la da decadência.

O governo federal chegou a esboçar um projeto de trabalho conjunto com o Rio. Mudou o ministro da Justiça, não se sabe como ficará o projeto. O interessante é colocar na mesa do próprio Haddad e convencê-lo de que a insegurança pública inibe novos investimentos e expulsa os existentes. Creio que esse enfoque, facilmente demonstrável, poderia acionar o poder público, embora a tarefa transcenda a governos. É um esforço que depende também da própria sociedade.

Artigo publicado no jornal O Globo em 11/03/2024

Fonte: Blog do Gabeira

Fernando Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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