Diário da crise XXXIX

E daí? Essa resposta de Bolsonaro quando confrontado com o crescente número de mortes no Brasil foi o tema de discussão em toda parte.

Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres.

Essa conclusão de Bolsonaro não me surpreende totalmente. Claro que um presidente da República tem de mostrar o mínimo de empatia e compaixão com seu povo.

Mas ele está convicto de que cerca de 70 por cento da população será contaminada. E não se importa que as pessoas morram por falta de atendimento. Mas esse é o resultado mais provável quando o sistema de saúde entra em colapso.

Sou leigo e do grupo de risco. Ainda tenho a audácia de ler diariamente não por curiosidade intelectual apenas. Mas por acreditar que o conhecimento ajuda a salvar vidas.

Outro dia escrevi sobre a pneumonia silenciosa produzida pelo corona vírus. Divulgava a tese de um especialista americano. No final texto, concluiu que era importante um oxímetro para medir a oxigenação e evitar surpresas, isto é internar as pessoas quando já for tarde demais.

Uma leitora ficou brava e disse que nunca mais me leria. Estava propondo algo fora do alcance do Brasil, um pais cheio de deficiências.

O oxímetro n∫ao custa tão caro. Mas entendo a irritação dela. Possivelmente acha que estamos condenados a morrer em grande quantidade apenas porque somos mais pobres.

Essas pessoas se irritam com quem se rebela contra as mortes, como se fôssemos os arrogantes personagens de uma tragédia grega e merecêssemos um castigo por desafiar o destino.

Mais tarde, Bolsonaro voltou ao tema e expressou sua solidariedade com as famílias dos mortos. Mas sua tese continua sendo a da imunização pela contaminação geral.

O pior é que não é uma tese estapafúrdia. Apenas não leva em conta o fato de que muitas pessoas adoecerem ao mesmo tempo, morrerá muito mais gente se essa contaminação se alongar pelo tempo.

O mais doloroso é que essa briga não precisava existir. Poderíamos ter uma posição nacional e solidária. Ainda que muitos se contaminassem ao longo do tempo, o essencial é que houvesse o mínimo de mortes.

Há muito o que fazer para evitar essas mortes. Quando o presidente se resigna, ele se afasta das milhares de pessoas que estão no front, cuidando dos doentes.

Ele tem ainda apoio de 30 por cento da população. Mas duvido que todos os seus eleitores apoiam uma reação como essa diante do crescimento do número de mortes.

Existe um núcleo mais duro e insensível que faz buzinaço na porta dos hospitais. Esses são adeptos da política da morte, da tese vamos deixar logo que os mais fracos desapareçam e prosseguir na economia, no crescimento.

Há uma frase hoje muito falada entre os que buscam saída para a economia pós-crise em Amsterdã. Ela é válida para esse gente: a filosofia do crescimento pelo crescimento pelo crescimento é a filosofia da célula cancerosa.

Fonte: Blog do Gabeira

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