20 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Uma luta delirante contra o tempo

Uma luta delirante contra o tempo.

Foto: Acir Galvão

A notícia saiu na mídia internacional e também aqui, em O TEMPO. O multimilionário Bryan Johnson, que se diz pesquisador da fonte da juventude, atleta profissional do rejuvenescimento e outros títulos hilários, está se borrando de medo de envelhecer e morrer. Por causa desses temores, o dono de um ego gigantesco e de dinheiro a rodo investe fortunas em dietas e suplementos fantásticos, ginásticas, transfusões sanguíneas, hormônios mágicos e salários dos 30 médicos que o assessoram na louca busca pela vida eterna. Avanço da ciência, benefícios para a humanidade o motivam? Naninha; só medo, aposto.

Cuidar da saúde e do bem-estar é ótimo, claro. Mas parece que um grupo de humanos – assim como o Bryan – está passando tempo demais diante do espelho e se esquecendo de que, cedo ou tarde, por qualquer doença ou escorregão na calçada, a gente vai embora mesmo. Ninguém – bilionário, pobre, feio, bonito, jovem, idoso, anônimo ou celebridade – escapa da velha senhora que não manda aviso. Como repetem os americanos, as únicas coisas seguras dessa vida são “death and taxes” – o fim da linha e os impostos. Bryan poderia gastar melhor seu tempo nessa curta estadia no planeta deixando de lado o espelho e a embalagem perecível de seu corpo e, com o poder do dinheiro que tem, dedicar-se a tarefas menos fantasiosas e egoístas.

Dias atrás comentei a notícia de um modesto casal brasileiro que passou anos economizando para realizar um sonho. Casa própria? Estudos? Viagens? Abrir uma empresa? Não: a poupança foi gasta em cirurgias plásticas da patroa cinquentona; silicone nos seios e nas nádegas, lipoaspirações, esticadas e puxadas diversas. Enfim, o projeto maior do casal resumia-se a esculpir um espécime “belo” e “sexy”; curvas, planícies e protuberâncias das quais se orgulhariam. Final terrível: confiaram num safado que se dizia cirurgião plástico; deu tudo errado.

Há por aí muita gente ansiosa à caça da “felicidade” por meio de um ilusório padrão de beleza e perfeição. E não só para bundas – mas para seios, coxas, narizes e, agora, até para os dentes, sob um inusitado ditame de “formato ideal” dos sorrisos das adolescentes. Normalmente inseguras, em busca de aprovação, muitas jovens com dentes naturais lindos aguardam transformações nas salas de espera dos especialistas desse novo e caríssimo supérfluo.

Vivemos um tempo quando as aparências valem mais que os conteúdos – engodo perigoso, frágil, causa frequente de decepções e depressões. Bundas infladas fazem sucesso nas ruas. (Frase chula, perdão. Deveria ter escrito: “Glúteos preenchidos deslumbram passantes nos logradouros públicos”.) Nas intervenções, além dos riscos cirúrgicos, há também os estéticos, já que a fronteira que separa o belo do grotesco é tão sutil quanto o fio de um bisturi.

A cura do vazio é fácil e barata com supressões e preenchimentos mais saudáveis e duradouros. Menos ambição, menos vaidade, menos consumo, menos preocupação com a idade, menos TV e internet. Mais humildade diante do mistério da vida e de nossa efêmera passagem pelo mundo; mais passeios, contemplações da natureza, meditações, viagens, lazer, livros, boas amizades, bate-papos e, sobretudo, afetos, carinhos, amores gostosos de corpo e alma – santos remédios.

A obsessão pela eternidade do bilionário Bryan lembrou-me a cena final de Al Pacino em “O Advogado do Diabo”, no qual ele faz o papel do próprio. Numa última tentativa de se apossar da alma do até então incorruptível e idealista causídico Keanu Reeves, ele oferece fama e fortuna imensas ao rapaz, que finalmente aceita a proposta. Feliz, o capeta Al Pacino sussurra:

– Ah, a vaidade! Este é meu pecado favorito!

Fonte: Jornal O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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