20 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Três mal-entendidos

Você ouviu bem o que eu disse?

Foto: Acir Galvão

Primeiro. Era uma vez três amigos que gostavam muito de jazz desde jovens. Fanáticos, não perdiam um lançamento, trocavam gravações e dicas, conheciam tudo e todos os músicos, big bands, conjuntos e solistas de qualquer estilo. Um dia, veio a notícia: Stan Getz, o famoso saxofonista, faria uma turnê pelo Brasil. E – oba! – a cidade deles estava no roteiro. Correram para comprar os ingressos com antecedência. Quatro lugares.

—Ué! Quatro, por quê? – quis saber um.

—É pra Marinês, minha mulher. Quando contei sobre o show do Stan Getz, ficou doidinha. Disse que fazia questão de ir, que não perderia por nada. Achei esquisito, ela não suporta jazz, adora bolero, tango, mambo…

E lá foram eles. Porém, Marinês levantou-se subitamente e abandonou a plateia, decepcionada e emburrada, logo que o velho Stan soprou no cachimbo as primeiras notas do “Garota de Ipanema”. E os três amigos saíram em seguida, segurando as gargalhadas, em solidariedade à querida amiga. Pobre Marinês: jurava que assistiria a um show de tango apresentado por um imaginário grupo feminino argentino denominado “As Tanguetes”.

Segundo. Ele era um próspero sitiante. Gostava de cavalos, metia-se a entender do assunto. Numa viagem à França viu de perto um cavalo bretão, aquele de patas largas, forte e elegante, bom para puxar carroças de feno na Bretanha ao som de um acordeom nostálgico. Apaixonou-se pelo bicho. Mas, no Brasil, cavalo bretão naquela época era coisa rara, só alguns criadores diziam conhecer, muito difíceis. Teimoso, ele não desistiu. Deu telefonemas, pesquisou na internet, mandou uma porção de mensagens. E ficou à espera de alguma novidade.

Um dia, o caseiro avisou que tinha um recado sobre o cavalo esquisito. Alguém nos cafundós do Paraná mandara dizer que tinha um cavalo bretão, macho, para vender. Porém, tinha de ser logo: o dono estava apertado, precisando de dinheiro, preço de pechincha. Ele não titubeou. Tirou uns dias de licença no trabalho, emendou com o fim de semana. Subiu na camionete, viajou noite e dia, pegou chuva, atolou-se, perdeu-se várias vezes numa estradinha de terra. Mas chegou lá, exausto. Um grandalhão louro, com cara de gringo, abriu a porteira e cumprimentou-o com um largo sorriso:

—O senhor veio ver o animal? Entra, entra!

Num curral miserável, um cavalo grande, comum e de pelagem negra. O dono coçou a cabeça:

—Ué, o senhor não queria um cavalo assim, bem pretão? Olha a cor dele, que beleza!

Terceiro. O moço era bom e humilde. Trabalhava como balconista numa loja de tintas e materiais de construção. Um dia, visitou uns primos em Governador Valadares, ouviu histórias, cresceu os olhos, perdeu o juízo. Arrumou dinheiro com um padrinho, pegou um voo para o México, deu os últimos dólares a um coiote e, depois de muita fome, sede, medo e frio, entrou nos Estados Unidos, sonhando em mudar de vida. No Brasil, Darlene, a namorada, chorava aflita, com saudades. Nem sequer conseguia concentrar-se no trabalho de babá dos gêmeos. E sofreu tanto que os patrões dela se comoveram. Indo a Miami de férias, conseguiram o endereço do rapaz. Encontraram-no feliz, vendendo bugigangas para turistas na loja de um cubano.

—Ele está bem, Darlene, arrumou emprego, mandou lembranças e este presentinho. Vem te visitar quando der, está ajuntando uns trocados. Trabalha vendendo souvenir.

E Darlene, na alegria ingênua das almas simples:

— Ah, não! Que coincidência, gente! Vendendo tinta de novo?

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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