21 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Sempre felizes

Nenhuma dor, nenhum incômodo, nenhuma lição.

Foto: Editoria de Arte

A família paulista que conheci era riquíssima; dona de fazendas de café, indústrias e outros negócios milionários. Um dia, morreu o patriarca, velhinho simpático, risonho. No dia do funeral, as crianças e jovens do clã foram logo reunidos e levados para bem longe do triste cenário. A viúva – e avó – chamara o motorista e ordenara passeios nos shoppings com as crianças “para não ficarem tristes”. Verba extra: netos e netas ganharam novos joguinhos eletrônicos, roupas, tênis e só retornaram após um dia inteiro de compras, divertimentos em brinquedos de parques e lanches no McDonald’s. Dia lúdico. Nenhuma dor.

Tempos depois li as primeiras referências daquilo que os educadores denominavam “pais helicópteros”, termo criado num artigo da revista “Developmental Psychology”, da Universidade de Minnesota. Quem seriam estes estranhos genitores de características aeronáuticas? São aqueles pais e mães superprotetores, excessivamente preocupados com as emoções dos seus filhos. Operando no “modo helicóptero”, dão sempre um jeitinho de suspender suas crias aos ares, salvando-as de tristezas e aborrecimentos, ultrapassando por via aérea o “problema” e depositando-os, sãos, salvos e felizes, logo adiante.

Agora, ouço comentários de amigos psiquiatras atentos à frequência desse tipo de atitude, sobretudo em casais mais jovens. Tal comportamento reflete o exagero de um instinto natural – ocultar dos filhos as dores, os perigos, os desgostos, as tristezas e dificuldades da vida. Lógico: cuidar da prole, protegê-la, resguardá-la, é normal, saudável e compreensível – mas desde que na medida adequada.

Sabemos que a vida não é sempre cor-de-rosa. Situações penosas, desagradáveis e estressantes nos esperam seguramente desde o nascimento até a velhice; ninguém escapa delas, por mais rico, bonito ou famoso que seja. Porém, qualquer pedagogo pode afirmar que tais eventos adversos são importantes e fundamentais para a formação das personalidades. Encarar “nãos”, dores, dificuldades e buscar vivenciá-los – em vez de fugir ou “terceirizá-los” – é a base confiável sobre a qual se formará um indivíduo maduro e emocionalmente equilibrado, pronto para construir seu futuro, relacionando-se com seus semelhantes e criando empatias.

“Pais helicópteros” e o exagero na preocupação com as emoções das crianças é agora também tema do novo livro da norte-americana Abigail Shrier, “Why the Kids Aren’t Growing Up (“Por Que as Crianças Não Estão Crescendo”). Já o coloquei na minha lista e compartilho alguns trechos interessantes encontrados numa resenha na internet.

Segundo Abigail, “nossa sociedade diz constantemente às crianças que elas deveriam ser ‘felizes’ e pergunta se elas estão”. “A felicidade não é um estado que dura 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso não é realista. Alegria e felicidade não permanecem; são coisas passageiras. Já contentamento, quietude e equilíbrio são objetivos muito melhores a serem alcançados mentalmente”.

E mais: “Perguntando incessantemente como estão se sentindo, se estão felizes, criamos seres hedonistas e que pensam serem frágeis, em vez de resilientes. Nesse cenário, as crianças dramatizam demais o que acontece com elas, achando que o mundo gira em torno de suas emoções e sentimentos. Qualquer probleminha vira uma catástrofe”.

“Desenvolvemos nossas mentes fazendo coisas, realizando-as – e não somente remoendo questões abstratas ou reflexões existenciais. Ganhamos confiança e eliminamos ansiedade enfrentando tarefas cada vez mais difíceis e percebendo que somos pessoas competentes e capazes. Portanto, ao tentar resolver todos os problemas dos filhos vamos criando uma geração dependente, insegura, imatura, que não conseguirá fazer nada por conta própria”.

A capa do livro de Abigail Shrier é perfeita: na foto vemos uma pré-adolescente típica dentro de uma imensa redoma de vidro, “protegida” deste mundo feio, complicado, cruel – e real, mundo que muitos pais tentam esconder de seus filhos.

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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