20 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Propaganda enganosa

O país vai mal, mas isso é bom.

Foto: Helvio

Se você faz parte do quase extinto grupo que ainda assiste aos noticiários da TV, preste atenção. Nas principais emissoras, agora é raridade ouvir alguma notícia negativa sobre a economia, as questões sociais, a saúde, a segurança, a proteção ambiental. Os apresentadores sorridentes, íntegros e imparciais, passaram a falar bem do governo.

E, se aguardar o intervalo comercial, vai perceber também – que coincidência! – que voltaram as propagandas do Banco do Brasil, Petrobras, Caixa e outros órgãos públicos que andavam muito sumidos. São comerciais imensos, alguns de um minuto ou mais, e custa uma fortuna produzir e exibi-los em horário nobre; o mais caro. Daí, é fácil deduzir que as editorias jornalísticas vivem em namoro permanente com os departamentos financeiros das emissoras, discutindo a relação, trocando carinhos e gentilezas.

Publicidade é feita para atrair a atenção do público, esclarecendo as vantagens de um produto ou serviço. Porém, os governos de esquerda conseguiram criar uma nova modalidade: a propaganda para despistar, para não chamar atenção. Ué?! Para não chamar atenção, você leu isso mesmo? Exato: é aquele tipo de comercial repleto de gente sorridente, paisagens tropicais, musiquinha linda ao fundo, vagas frases emocionantes, clichês, lugares-comuns e baboseiras coloridas da primeira à última cena.

Encantado, você se distrai com imagens de crianças bonitinhas na creche, operários felizes na obra, mulher grávida acariciando o barrigão, galera dançando rap, mãe beijando filho, neto beijando avó, marido beijando esposa – a xaropada de pieguices que publicitários usam e abusam. E por alguns segundos se esquece de que aquela fortuna poderia estar sendo usada para uma infinidade de ações muito mais importantes no seu país, de urgências e emergências escabrosas. Ou seja: cada “comercial-despiste” desses é um tapa na sua cara e um ataque ao seu bolso.

Em 2023, a Petrobras aumentou em 59% seus gastos de propaganda; o Banco do Brasil segue na mesma linha, e os Correios prometem novo show de desperdício. Em 2021, a empresa estava incluída no Programa Nacional de Desestatização do governo Bolsonaro por causa dos péssimos serviços e do rombo financeiro descomunal, fruto de trambiques. Agora, os Correios reservaram R$ 380 milhões para torrar em comerciais – tolices e ufanismos bregas deste Brasil que volta a ser carnavalesco e criminoso com dinheiro público gasto em propaganda cafajeste e enganosa.

Tanta grana assim será destinada só ao pagamento das agências de propaganda e das emissoras – o que já seria um escândalo? Fica a dúvida. Lembre-se de que o Mensalão de 2005 foi concebido, gerado e nutrido na surdina, exatamente com verbas de propaganda das estatais. A rubrica “despesas com publicidade” nas planilhas oficiais é um buraco sem fundo e de dimensões insondáveis, protegido e bem disfarçado para bancar pagamentos muito além de nossa ingênua imaginação – como os de campanhas políticas de aliados, aqui e no exterior.

Um ano e esse governo já coleciona vexames diplomáticos, cumplicidade velada com grupos suspeitos, desgaste da imagem nacional, conflitos entre Poderes, menos recursos para educação, saúde e segurança; mais mortes de indígenas, mais incêndios na Amazônia; aumentos nos combustíveis; invasões de terras, recorde de mortes por dengue, prisões arbitrárias, empresas fechando, viagens esbanjadoras e 37 ministérios – gastanças que abriram um rombo de R$ 177,4 bilhões. “União e reconstrução” ou “vingança e bancarrota”?

Pensando bem, se a comentarista disser que tudo isso é ruim, mas é bom para você, ela está certa, em parte. Seguramente não é bom para você, leitor; muito menos para mim e tantos outros. Mas é bom, é ótimo para milhões de eleitores ignorantes, iludidos e “isentos” caírem na real.

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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