18 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Más influências

Nas nossas mãos, os novos gurus da patifaria.

Maconha, cocaína, heroína, álcool, barbitúricos, morfina, anfetaminas, crack, ópio, ecstasy e até tíner para cheirar – o cardápio é variado. Mas os efeitos são parecidos: as drogas tiram momentaneamente o sujeito da dureza da vida real ou do desânimo de sua existência e levam-no aos territórios do prazer, do esplendor, do brilho. Só que é tudo ilusão e logo passa.

A expressão “viagem”, adotada nos anos 1960, quando o consumo explodiu, foi perfeita. Aos turistas eventuais as drogas causam danos menores. Porém, os que nela embarcam com frequência acrescentam um adicional perigoso à bagagem. Em busca de voos cada vez mais altos e prazerosos, muitos terminam despencando sob o peso extra da fantasia traiçoeira. E as mortes envolvendo os ganhos, a disputa ou o desespero pelo êxtase já são rotina.

Tanta porcaria para fumar, cheirar, injetar e engolir, e um novo tóxico apossou-se de mais uma parte do corpo humano – os olhos. Invadindo o organismo através deles, o telefone celular há muito abandonou sua função primária – comunicar-se – e transformou-se numa droga perversa e de alto poder devastador. Tal quais as químicas, a droga-celular criou um universo absurdo e fantástico, que abduziu milhões, levando-os a crer não necessitarem de mais nada além daquilo que sugam da telinha.

Abraços e beijos, contatos com a epiderme dos semelhantes, conversas sinceras, desabafos e confidências, odores e sabores apetitosos, a natureza em volta, perfume da mulher amada, encontros presenciais, bichos divertidos, solidões criativas, alegrias e tristezas reais – nada disso mais importa. O certo e o errado, a beleza e a feiura, o bem e o mal, os fatos e as versões – tudo ganha embalagem enganosa no formato quadrangular, só dependendo dos interesses de quem os paga.

Idêntico ao dos traficantes clássicos – bandidões tipo Pablo Escobar –, um novo perfil de malfeitor se revelou no mundo: o influenciador. Ele é o responsável pela produção, controle e distribuição da nova droga digital; os conteúdos. Como nas quadrilhas dos narcotraficantes, o negócio não tem ética nem escrúpulos. A única meta é aumentar o número de vítimas, viciados, dependentes – ops! – “seguidores”, quero dizer. Finalmente – e infelizmente, por conta de episódios trágicos – começaram a aparecer os responsáveis. Chefões ocultos e suas empresas de bastidores lucram bilhões semeando mentira, inveja, vaidade, egoísmo, ostentação, ciúme, ódio e outras misérias humanas maquiadas como “entretenimento”.

Médicos comprovam a síndrome de abstinência do aparelho; moléstia contemporânea de características similares às da abstinência de entorpecentes. Privado da droga digital, o sujeito sente-se inseguro, em pânico, excluído de algo que nem sabe bem definir, mas cuja falta lhe provoca um vazio aterrador. Não é assim também com o álcool, a cocaína, a heroína, o crack?

Os mais prevenidos dispõem de antídotos que anulam os efeitos danosos e usam o celular apenas como um aparelho útil e prático. Porém, são poucos os imunizados. A maioria vulnerável – sobretudo jovens e crianças – já foi contaminada e está à mercê dos traficantes da informação e dos delírios virtuais.

A “culpa” não é da internet; confundir o “meio” com a “mensagem” é um erro primário. Um celular não é um dispositivo que pensa e age por conta própria. Assim como a TV, que despeja lixo ininterrupto nas telas, a composição desse estrume é decidida por homens e mulheres; mercenários velhacos especializados na captura e aprisionamento do espectador, a qualquer custo.

Claro: não se pode generalizar. Mas estão sendo revelados os nomes e as caras daqueles que se enriquecem espalhando crueldades nos papéis dos novos gurus da patifaria. Nenhuma novidade: a história sempre esteve cheia deles.

Fonte: O Tempo

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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