23 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

Conversa com Dona Zika

O Brasil tem mais genocidas do que você pensa.

Foto: Editoria de Arte

Acabo de entrar na estatística: agora, faço parte do grupo de 2 milhões de vítimas da dengue. E, como foi batido o recorde dos casos no Brasil, o retorno da doença já deve estar exibindo números muito mais altos. Felizmente, no meu caso durou pouco; com apenas dores no corpo e febre baixa.

Porém, em meio a um delírio febril, tive a chance de entabular agradável e esclarecedor bate-papo com Dona Zika, a Aedes aegypti do gênero feminino que me picou. Barriga cheia, pousou calmamente no meu travesseiro, puxou conversa e relatou a mim fatos curiosos sobre sua atividade neste cenário pandêmico.

– E então, como vai? – zumbiu ela, gentilmente.

– Vou levando, Dona Zika. Dengou-me direitinho, sua danada.

– É a minha natureza, caro cronista. Preciso de sangue para dar continuidade à espécie.

– Claro, entendo. Estava dando um rolê nas redondezas, viu meu braço sem repelente e mandou ver…

Dona Zika sorriu e esfregou a barriguinha, satisfeita.

– Sim, sim. Sangue tinto, maduro, amadeirado, levemente encorpado, com retrogosto italiano, correto?

– E agora, que vai fazer? Buscar água limpa para botar seus ovos?

– Que nada! Já descobriram que posso despejá-los em qualquer poça de água, seja limpa ou suja, como a dos esgotos. Foi uma adaptação oportuna para ampliarmos nosso mercado, estratégia de marketing, fidelização do público-alvo, entende?

Nesse ponto da conversa, senti novo arrepio – e não pela febre. Caramba!

– Jura? Agora também existem berçários em água suja? – perguntei, atônito.

– Em todo o Brasil, queridão.

Lembrei-me de que pelo menos metade da população brasileira sofre com problemas de saneamento básico e que 40 milhões de famílias não têm banheiro dentro de casa. O Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento relata que 35 milhões não dispõem de água tratada e mais de 100 milhões não contam com coleta de esgoto. E que, por incompetência dos responsáveis, o Marco Legal do Saneamento Básico, que previa a universalização dos serviços até 2033, certamente será mais uma meta descumprida deste governo, que engana no essencial e esbanja no supérfluo.

Daí concluímos que os verdadeiros genocidas nacionais usam gravatas, falam muito, fazem promessas de campanha e, depois, quando poderiam e deveriam, não aplicam um centavo em novas obras de saneamento – porque estas não aparecem, não dão “visibilidade”. Assim, preferem gastar nosso dinheiro em estádios de futebol, sambódromos, shows, ciclovias e outras demagogias que iludem o povo, mantendo as ruas imundas e a insalubridade histórica das periferias e comunidades carentes.

Lembram? Em 2020, o atual ocupante da Presidência declarou: “Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou este monstro coronavírus. Porque está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”.

Oportunismo asqueroso, hein? Porque agora, que a coisa é com ele, o sujeito repete a fórmula de sempre: não mostra a cara, terceiriza culpados e até fez a ministra chorar para “tirar o seu da reta”.

O retorno devastador da dengue comprova a falência precoce desse governo e, dia após dia, outras verdades incômodas e fantasias populistas vão sendo desmascaradas. Mas não se iludam: a praga da sem-vergonhice continua se multiplicando sem controle, como as larvas do mosquito.

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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