18 de abril de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

A arte de mamar

Pão mais caro e fortunas para o circo.

Há uma piadinha antiga que circula no meio artístico de Nova York. É uma anedota batida, mas sempre relembrada e cheia de significado. Dizem que uma cantora novata, recém-chegada à cidade para tentar a vida, perambulava pelo centro, olhando os arranha-céus, extasiada e perdida. (Detalhe: como a piada é velha, ainda não existiam celulares, nem Google Maps, nem Waze, nem aplicativos do tipo.) Antes de tudo, a mocinha queria conhecer o Carnegie Hall, a famosíssima casa de espetáculos da cidade. Quase desesperada, pediu ajuda a um passante – por acaso, um crítico musical:

– Moço, uma informação… Eu sou cantora… Como posso chegar ao Carnegie Hall?

– Praticando, praticando… Só ensaiando muito, querida…

Não se trata apenas de uma piada modelo show-business norte americano. Acho que a vida de artista, em qualquer lugar, é mesmo dura. Além do talento – item de nascença –, viver da arte exige dedicação, ânimo, coragem e muito, muito aprendizado, treinamento, ensaios diários, extenuantes. Assim, com alguma sorte, pode-se chegar à fama e até ao Carnegie Hall, se for o caso. Artista vive de seu gênio e dos aplausos. Arte de sucesso é aquela que agrada ao público (seja ele qual for), enche teatros, cinemas, galerias. E dá dinheiro ao seu autor, por justiça. A jornada é sempre assim – menos no Brasil.

Aqui, na terra dos coitadinhos, alguns “artistas” – muitos entre aspas – podem contar com o generoso apoio do governo por meio de leis de incentivo. Em primeiro lugar, deve professar afinidade ideológica com o grupo que está no poder. O resto é mole: caindo na simpatia dos poderosos, ganhando um empurrãozinho dos colegas, um dia aparece a grana do patrocínio. E dela ele viverá, independentemente da qualidade de sua produção, independentemente do valor artístico daquilo que cria, independentemente de seu público, dos aplausos, do reconhecimento da crítica. A teta é farta para os amigos da vaca.

Por aqui, o artista não é visto como um indivíduo talentoso, capaz de exercer seu ofício e ganhar a vida dignamente como qualquer profissional. Ele é considerado pelo poder um ser carente e desprovido de autonomia; deve ser apoiado com afagos, estímulos e dinheiro. Vários amigos estrangeiros me perguntam: “Por que só para artistas? Seu país poderia incentivar também outras classes profissionais importantes, há muita carência por aí, não?”

A lei de incentivo deveria estar restrita a artistas iniciantes, como no governo anterior. Valores menores, bem aplicados sob o critério técnico, estimularam a vida dura de quem estava começando. Porém, o que vemos é uma vergonha: artistas já consagrados, milionários, outra vez recebendo novos milhões – dinheiro público, não se esqueçam – para suas turnês. Em troca, o poder exige apenas a logomarca no material publicitário e puxadinhas de saco frequentes. Patrocinado pelo poder, o artista perde um tanto de sua liberdade – matéria-prima essencial no processo criativo – e aceita a coleira oficial.

Economia estagnada, inflação, carestia, pandemia de dengue ocultada pela mídia cúmplice, política externa desastrosa, ministros medíocres, amizade com tiranos, rejeição em alta – nada disso importa: abram mais as portas do circo.

Ao liberar novamente milhões de recursos da Lei Rouanet – recorde histórico – para uma nação onde cerca de 30% vivem na miséria, o ocupante assíduo das aeronaves oficiais e, eventualmente, do Palácio da Alvorada teve ainda a cara de pau de afirmar que “cultura interessa ao povo tanto quanto um prato de comida” – como se vivêssemos na Dinamarca, Noruega, Suíça ou qualquer país decente, sem fome, roubalheira, corrupção deslavada e onde as necessidades básicas do povo já estivessem atendidas. Teve gente que aplaudiu. Adivinhe quem?

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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