23 de maio de 2022
Colunistas Erika Bento

Vencendo o tédio

Não me considero uma pessoa velha. Aos 54 anos, ainda sinto que estou na metade da vida (sim, pretendo viver pelo menos até os 100 anos), mas tem algo que vem atraindo a minha atenção, ultimamente. Quanto mais velha eu fico, menos entediada me sinto. E agora, eu entendo o porquê.

O tédio é uma sensação de aborrecimento, de desgosto, de ausência de gratificação. Nunca se viu uma sociedade mais entediada do que a atual, graças ao estímulo exagerado do qual estamos expostos o dia todo através da tecnologia. 

Sem pecar pelo exagero, hoje em dia, temos acesso ao mundo inteiro na palma da mão. Com o fácil acesso à milhares de possibilidades, não é de se espantar que menos de 42% dos britânicos usam o celular para fazer ou receber chamadas.

Uma pesquisa feita em 2019, no Reino Unido, identificou que o envio de mensagens, acesso à mídia social, leitura de notícias, tirar fotos, fazer vídeos e até mesmo consulta à  previsão do tempo estão entre as dez maiores finalidades do celular (fazer e receber chamadas vem logo atrás, no 11o lugar). 

Por que isso é relevante? Porque este fácil acesso a, literalmente, um mundo de excitação está contribuindo para uma sociedade de indivíduos incapazes de ficar em silêncio consigo mesmo por mais de cinco minutos (se muito!). 

O tédio, agora eu entendo, é o resultado da incapacidade de silenciar a mente. 

Tente você mesmo. Deixe o celular de lado. Desligue a televisão. Feche o livro. Desligue a música. E simplesmente contemple os seus próprios pensamentos.

Veja quanto tempo você consegue permanecer consigo mesmo, quanto tempo até você se deixar vencer pela necessidade quase física de fazer alguma coisa ou, melhor dizendo, a sensação de tédio batendo à sua porta…

O cérebro do homem moderno está viciado em distrações. A tecnologia é a droga do século XXI. Estamos passando pela vida dopados pela dopamina da gratificação instantânea. 

Há alguns meses, resolvi testar o aplicativo de compartilhamento de vídeos, TikTok.

Google Imagens – NFE.io

Fiquei fascinada pela coisa. Surpreendentemente, tem muita coisa interessante por lá, mas o mais interessante foi perceber a necessidade compulsiva de continuar rolando a tela do celular incansavelmente para o próximo vídeo, e o próximo, e o próximo, e o próximo, por HORAS! Depois de algumas semanas, percebi as mudanças acontecendo em mim. 

Comecei a ficar mais agitada, desconectada de mim mesma e das minhas atividade cotidianas. Minha atenção foi largamente voltada para uma necessidade de poluição sonora e visual.

Não necessariamente, eu queria ficar no TikTok o tempo todo. Pior do que isso. Eu não tinha mais a habilidade de me concentrar. Havia uma urgência de ter um estimulo atrás de estímulo.  Semelhante à dependência química, eu ficava entediada sem a minha dose de gratificação fácil.

Possuir a habilidade de simplesmente parar sem sentir esta agitação é o melhor presente que eu já dei a mim mesma.

Se viver nesta paz é sinônimo de velhice, eu tenho pena dos jovens.

Jornalista, foi repórter e apresentadora de telejornal por oito anos, atuando como editora e editora-chefe nas principais emissoras do país por mais de cinco anos. Jornalista por 15 anos. Atualmente radicada no exterior.

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