28 de maio de 2022
Vera Vaia

Sonho ou Realidade?


Analu, minha neta, nunca foi lá de dormir muito bem. Por conta disso, sua mãe Giuliana, e portanto minha filha, fez até um blog com o nome de Lulu não Dorme para contar como eram suas noites insones.
Hoje, com nove anos e uns quebrados, Lulu ainda não dorme direito. Não dorme e não deixa ninguém que esteja ao seu lado, dormir.
Quando eu sou a escolhida (adooooro, apesar de tudo), entre um cochilo e outro, acordo com seus pés na minha cara ou com seus chutes na minhas costas.
E foi numa dessas dormitadas que sonhei que no meu café da manhã tinha “Ceausescu” (a pronúncia é tchauxescu) assado. Era um bolinho escuro, provavelmente feito com açúcar mascavo e passas que parecia apetitoso, e vinha acompanhado de um suco de frutas.
Acordei rindo!
Por onde cazzo andam nossas mentes quando dormimos pra me fazer querer comer um bolinho com o nome de um ditador romeno, que do corpo, já não resta nem o pó? Nicolae Ceausescu (falta uma perninha aí no s, mas meu IPad não escreve em romeno) foi secretário do Partido Comunista e depois Presidente da República Socialista Romena entre 1974 e 1989, ano em que seu governo caiu e ele acabou sendo fuzilado.
Fiquei deitada ao lado da minha chutadora preferida por mais um tempo, tentando decifrar o sonho esdrúxulo.
Encontrei algumas relações, acho!
A associação a um nome comunista deve ter surgido lá no Twitter onde fico até tarde da noite, todos os dias. É como sou classificada pelos adoradores de mitos. Lá, a regra ditada por eles, é clara: se você não é de direita, é necessariamente comunista, e fim de papo!
A segunda relação com o inusitado breakfast, talvez tenha sido provocada pelo suco 100% fruta, aberto no jantar. Quando entornado nos copos ele se apresentou como suco 100% fungo, nos provocando náuseas, estragando nosso apetite.
Já bem acordada e me lembrando do suco, começo a pensar em como a gente tem sido enganada ao longo da vida, comprando gato por lebre.
Daí, como uma coisa puxa a outra, me vem à lembrança as justificativas dadas pelo novo presidente (o que disse que vai acabar com a violência e a corrupção), sobre os cheques dos sete assessores parlamentares que fizeram depósito na conta do ex-assessor do seu filho: “olha, se você pegar no seu círculo de amizades na imprensa ali, num quartel, num hospital, é normal entre aqueles funcionários, um ajudar o outro. É normal isso acontecer e não foi diferente na câmara, na assembleia legislativa…”
Nesse momento meu cérebro reagiu e imediatamente me lembrei de já ter assistido a um filme parecido com esse. O ator era Fernando Collor de Mello, o Caçador de Marajás, e o enredo girava em torno de um cheque fantasma, usado para a compra de um Fiat Elba para a primeira dama Rosane Collor. Depois de uma CPI que investigava seu braço direito PC Farias, Collor resolveu se defender. Ele apareceu em um vídeo fazendo carinha de cachorro enxotado de festa, dizendo: “…sofri um acidente. Bateram no meu carro…mandei consertar mas o carro não voltou a ser o mesmo. Pedi então ao meu secretário que vendesse a Veraneio e que comprasse, com o dinheiro da venda, um Fiat de menor valor, mais simples e mais barato…se na compra do outro carro usaram um cheque com identidade falsa, chamado cheque fantasma, descobrirei”!
Mais tarde o Brasil inteiro descobriu e ele foi impichado, apesar da sua atuação (péssima, aliás) na gravação em que desmentia a todas as acusações.
Mas o que tudo isso tem a ver com o bolinho e com o suco?
Numa rápida análise entre sonho e realidade, concluí que o bolinho não tem nada a ver com nada. Mais um daqueles sonhos sem pé, nem cabeça, já que não idolatro ditadores e nem bolinhos no café da manhã. Prefiro o velho e bom pão com manteiga.
Quanto ao suco, acho que foi só um dispositivo acionado para lembrar que o conteúdo das embalagens pode nos trazer surpresas. Boas ou ruins!
E como não dá pra saber antes, resta torcer para que a gente não tenha comprado, de novo, mais um produto estragado!
 

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Mãe de filha única, de quatro gatos e avó de uma lindeza. Professora de formação e jornalista de coração. Casada com jornalista, trabalhou em vários jornais de Jundiaí, cidade onde mora.

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