14 de julho de 2024
Colunistas Fernando Fabbrini

É tudo verdade

Fica proibido mentir em território nacional.

Foto: Hélvio

Crianças, mentir é feio! Se foi você que pegou o pirulito da mochila do coleguinha e pôs a culpa em outro, levante-se já da carteira e diga à professora:

– Fui eu, tia, num momento de fraqueza moral. Mas ouvi o conselho do presidente num discurso; arrependi-me do furto e da mentira que inventei.

Muito bem, é assim que se faz. O presidente da República, homem íntegro e intolerante com todo tipo de mentira, armação, farsa, maracutaia, patifaria e similares, acaba de dar o exemplo: se pudesse, faria um decreto “é proibido mentir”, exortando milhões rumo aos mais altos degraus da honestidade.

Compreensivelmente, ele mesmo pode cometer pequenos deslizes ou, quem sabe, ser traído pela memória – flagelo normal em humanos de idade avançada. Até lembrei-me de alguns desses equívocos, apesar de já estar também de cabelos brancos.

Depois do 8 de janeiro, o presidente comentou: “Vocês nunca leram uma notícia de algum partido de esquerda, de algum movimento que invadisse o Congresso Nacional, a Suprema Corte e o Palácio do Planalto”. Em 2006, mais de 500 integrantes do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) invadiram o Congresso com paus e pedras, quebrando vidros, equipamentos e ferindo dezenas de servidores. Em 2013, centenas de indígenas entraram sem autorização no plenário da Câmara. E, no ano seguinte, o STF suspendeu uma sessão porque 20 mil integrantes do MST tentaram invadir a Casa. Mas, calma: era gente boa, pacífica, e ninguém precisou ser preso por 14, 17 anos.

Assoberbado pelos compromissos extenuantes e agendas internacionais importantíssimas, ele tem direito a ligeiros escorregões, não é mesmo? Em reunião com Nicolás Maduro considerou “a coisa mais absurda” dizerem que o bigodudo é um ditador e assim desfez a mentira contra o amigo que manda e desmanda há mais de dez anos. Na Venezuela não tem eleições justas nem independência entre os Poderes? Maduro persegue opositores e jornalistas? Comete violações de direitos e crimes contra a humanidade? Tudo mentira; maledicências dos opositores golpistas negacionistas fascistas terraplanistas.

Mesmo ocupando o posto de homem mais querido da nação, cheio de amigos que bombam as audiências das lives e lotam as ruas espontaneamente, o presidente informou num debate da TV que jamais favoreceria um deles! Então, que fique bem claro: Cristiano Zanin – por acaso, seu advogado pessoal –, Ricardo Lewandowski e o comunista Flávio Dino – por acaso, velhos amigos do peito – tomaram posse por conta do notório saber desses baluartes da democracia, guardiões imparciais da Constituição. Coincidências – e pronto.

Ah, os números! Como a aritmética pode pregar peças num estadista atarefado, sempre às voltas com altas finanças, percentuais, ganhos e perdas! Se o presidente disse que iria reconstruir 186 milhões de unidades do Minha Casa, Minha Vida, perdoem-no: ele queria dizer 186 mil. Esqueçam também as “12 milhões de crianças que morreram na Faixa de Gaza”; e aquelas outras “25 milhões que vagueiam famintas pelas ruas do Brasil”; ou “700 milhões de brasileiros que morreram na pandemia”.

Inimigo tenaz das inverdades, ele alfinetou o bilionário Musk, “empresário que nunca trabalhou nem plantou capim”. O humilde patrimônio de R$ 7,4 milhões declarado ao TSE nas eleições é fruto de suor e esforço – não só dele, como de sua família, que no passado investiu nos rentáveis setores da construção civil urbana e rural, cosmética, perfumaria, trato e manejo de paquidermes.

Governantes do passado – como Stálin, Hitler, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro, Sadam Hussein, Pol Pot e muitos outros – também proibiram as mentiras. A verdade era única e exclusivamente aquela que eles diziam. E ai de quem não acreditasse.

Fernando Fabbrini

Escritor e colunista de O TEMPO

Escritor e colunista de O TEMPO

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