O bifinho da Conceição

Cauby
Eu não queria voltar à política.
E ainda pintou um problema. Esqueci o nome da ex-presidente… Só penso e vejo o presidente Temer.
Como era mesmo o nome dela?
Ela deve estar em casa agora, aborrecendo, perturbando os empregados; passando o dedo nos móveis, reclamando da poeira e sussurrando sozinha: “Fiz nada, não roubei, não vai ter golpe, culpa do Cunha, do FHC…”
Briga com a mãe, chuta o cachorro e grita pro José Eduardo Cardozo: “Ôoooo molenga, Ôoooo Rolando Lero, a que horas sai o almoço? A Gleisi Confirmou? O Lindbergh vai trazer o baralho? Você não chamou aquele chato do Lula não, né?”.
“Um rei sem diversão é coisa muito perigosa”.
Mas como era mesmo o nome desta mulher que foi presidente antes do Temer? Uma dentuça, feia pra caramba, que só falava besteiras e só fazia asneiras… Uma que tava aí sem saber o que fazer. Uma baranga que parecia se vestir na Tapeçaria Marcelo… O armário dela parecia roupa de show do Cauby Peixoto, lamê, paetê, lezard…
Desisto! Quem souber, me manda o nome da mocreia. Preguiça de procurar no Google.
Quanto ao Temer, espero que ele pedale muito, não a contabilidade deste empório de Secos e Molhados, mas o Brasil. Se ele não pedalar direito, caímos todos.
Tenho assunto muito mais importante, agradável e triste hoje: Cauby Peixoto que virou purpurina.
Adoro Cauby.
Ele, Ney Matogrosso e Fernando Gabeira foram as pessoas mais educadas que já entrevistei.
Um gentleman. Um cara doce. Simpático e extremamente talentoso. Voz linda. Repertório pitoresco e, como diriam os franceses, “especial”.
Lembro-me direitinho da nossa entrevista. Foi no Othon de BH. Ele foi super pontual. Chegou todo produzido no café da manhã. Cumprimentou a equipe da TV. E, meio encantado com o cinegrafista Marcelo, me perguntou: “Walter, como se chama o menino…? Diz pra ele me filmar deste lado, o direito, é o melhor”.
Tenho as imagens ainda. Foi muito bom e no final, fiquei meio melancólico, triste, por ele. Perguntei qual era seu sonho e ele: “Gravar de novo com uma orquestra”.
Ele estava meio no ostracismo e mal sabíamos que, alguns anos depois, voltaria a gravar tudo, inclusive com orquestra.
Depois disso seguia sua carreira e sempre quis vê-lo em ação novamente. Não consegui. Em dezembro passado, em São Paulo, fui ao Bar Brahma, esquina de São João e Ipiranga fiz fotos. Quem sabe não ilustro este texto com uma delas? Cauby se apresentava lá há anos, uma vez por semana. São Paulo, onde começou sua carreira, há mais de 60 anos.
Ops! Achei coisa melhor. Vejam aí em cima, a capa de um CD a mim autografado pelo Rouxinol de Niterói!
E ele falava umas coisas engraçadas, na maior seriedade: “Caetano quando me vê, me beija”.
E o empresário dele, o Di Veras? Eu imaginava o diretor do Alberto Roberto (meu Chico Anysio favorito), o Da Júlia (fantástico Lúcio Mauro).
Ah! Outra coisa. Quando estudei em BH, anos 80, do século passado, tinha uma casa de shows chamada, salvo engano, Cabaret Mineiro, onde as pessoas praticavam o karaokê impunemente.
Certa feita foi minha vez, vestido com um terno de linho branco, anos 40, que pertencia ao meu pai. Claro, eu estava bêbado e com certeza querendo impressionar alguma mulher que, naquela época devia ser uma moça. E gostosa. E deu certo!
Cantei “Bastidores” com voz de Cauby e, como na letra da música, quando cheguei ao fim, fui aplaudido de pé. Tenho testemunhas.
Mas a vida é a vida e cabe muita morte nela. Deus, em sua profunda sabedoria, faz com nossos pais; faz de nossos ídolos, bobos, pra gente ir perdendo a graça, o encanto com eles, pra não sofrermos tanto quando morrem. Como o Chico Buarque petista, por exemplo.
E, há alguns anos, percebia isso nas entrevistas de Cauby. Morreu aos 85 anos. Depois de tão provecta e veneranda idade, como reza o clichê, os velhos vão mesmo se tornando crianças. Ficam chatos e sem graça como crianças. E chego a achar Herodes natural.
Cauby estava assim: com cara de velho babão, um bigode ridículo, peruca, contando as mesmas histórias, as mesmas glórias, ao lado da amiga Ângela Maria, a Sapoti, outra que também anda meio monga e devendo cova.
A gente fica olhando e ouvindo estas pessoas, que já tanto viveram; que tiveram uma vida tão mais rica e interessante que a nossa, “há séculos” e sentimos certo prazer na vingança de sermos jovens, ou melhor, um pouco mais jovens que eles.
De repente, homens e mulheres de 80 e tantos anos, são apenas 30 anos mais velhos que eu. E duvido que eu chegue à idade deles.
Mas os que resistem, adoram falar que duram tanto porque não bebem, não fumam, não frequentam a noite. E acabam tornando-se outra coisa. Um retrato deles ao avesso. Uma caricatura, uma pálida figura de si mesmos.
Querem uma prova? Nas últimas entrevistas com Cauby e Ângela Maria, os dois adoravam falar e lembrar o tanto que Cauby gostava do bifinho que ela preparava para ele, na manteiga. Vê se pode… Bifinho!
Duas vidas inteiras, 120 anos de música entre eles, falando de bifinho na manteiga. Bifinho…
PS: E lá vou gritando em vão: Conceição! Zé Eduardo Cardozo! Cadê meu bifinho? E vem nem um Danoninho.

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