Cerejas francesas, lichias de Madagascar

walterGostaria de voltar ao 24 de dezembro de 1981, véspera de minha primeira viagem à França e fora do Brasil. Mas, além de impossível, isso é coisa de Cristiano Ronaldo que faz aulas de pintura em porcelana, bonsai, tricô e crochê!
Apenas uma pequena e saborosa vontade de reviver as inolvidáveis coisas pela primeira vez. A vida era mais bela e o sol mais brilhante que hoje. O tempo da delicadeza perdida.
Como confessei semana passada, ainda estou em Paris, com severa vontade de ficar mais. Muito mais tempo. Tipo para sempre.
O frio continua suportável para os normais. Para os mortais como eu é um pouco difícil, não menos prazeroso.
Paris não é festa nem Cidade Luz, mas continua civilizada, uma vocação ambulante e imortal para as boas coisas da vida.
Framboesas selvagens, vinhos, queijos, “comidinhas para depois do amor”. Antes e durante também. Ranunculus glacialis ou asiaticus dão um lado Monet e Matisse ao pequeno apartamento, em Montparnasse, neste 5 de janeiro de 2016.
Montparnasse de Kiki, Picasso, Giacometti e muitos outros. Na pequena TV ao lado, um documentário sobre a produção de cacau no Equador, onde o Brasil perde de novo, como para as rosas e o café da Colômbia.
Juro, prometo que não sinto falta do Brasil. Nem faço falta ao Brasil. Que coisa triste!
A atmosfera aqui ainda é a da ressaca dos ataques terroristas de 2015. Hoje faz um ano do ataque ao chato jornal Charlie Hedbo e várias comemorações e homenagens estão no prelo até domingo.
O parisiense coloca um pé atrás, mas não tem medo de sair. Idiota este terrorismo ao achar que dois quilos de covardia acabarão com 2000 anos de cultura, civilização, grande beleza e “savoir vivre”. Narcisos ao contrário podem achar feio o que não é espelho, mas e daí? Quem se importa com um bando de pobres selvagens e ignorantes que nem sabem quando estão com fome? Nem sabem de que é a fome.
Os dias, mesmo lentos, passam rapidamente. Hoje faz uma semana que cheguei e ainda tenho mais uma. Provavelmente, a próxima crônica virá de Lisboa, onde o clima, num apartamento bem maior e melhor – espero – me colocará à uma distância mais agradável e segura do Brasil.
Por falar na PTlândia, impressionante como a França esqueceu-nos por completo. No Révéillon, parecia que o ano só havia passado no Oriente Médio e nas grandes cidades do Extremo Oriente e Oceania. Nem um só vulgar grão de areia de Copacabana.
Quantas pessoas mais morreram nas filas dos hospitais cariocas, Medalha de Ouro em Saúde, retrato do Brasil?
No mais, já comi ostras e escargots. Fui ver a bela exposição Picasso Mania, no Grand Palais. Hoje vou conferir mais duas: “Esplendor e miséria – Imagens da Prostituição (1850 – 1910), no Museu d’Orsay e outra, fotográfica, sobre os 100 anos de Frank Sinatra. Tantas outras ficarão na vontade de quero mais. De quero mais Paris “pour toujours et à jamais”.
Pensando bem, tô cansado. Melhor trocar as exposições por pequenos flocos de felicidade: lavar um pouco de louça com água morna; arrumar meio metro da bagunça da sala; descer o lixo, previamente todo reciclado.
ps: fiscais e multa de 65 euros para quem jogar guimbas de cigarro na rua, para quem urinar nas paredes das ruas e para quem não recolhe coco de seus cães.

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