Hábito, lenda ou mito?

A notícia não é nova: algumas garrafas do famoso Château Petrus foram passar uma temporada no espaço e já retornaram, até onde se sabe, sem problemas. O que há de novo é a volta de uma velha discussão, sobre os efeitos de uma longa viagem nas garrafas de vinhos transportadas.

A recomendação é antiga: deixe repousar as garrafas que viajaram com você antes de degustá-las. A ideia seria permitir que os eventuais sedimentos, revolvidos durante o transporte, decantem naturalmente para o fundo da garrafa ou para um lado, no caso de deixá-las repousando na horizontal.

Como em qualquer outra disputa, lados se formam e defendem seus pontos. Há quem afirme que é possível identificar alterações em várias características como taninos mais agressivos, aromas e sabores fechados e até efeitos sobre o teor alcoólico. No outro lado do ringue está a turma que apenas diz: “isso não passa de sua imaginação” …

Do ponto de vista da ciência, pouca coisa foi estudada até agora. Uma das experiências mais completas trabalhou com 3 grupos de amostras de um mesmo vinho. Uma parte permaneceu fixa, para servir de referência. As outras duas viajaram uma longa distância, por avião ou transporte rodoviário.

Reunidas, foram avaliadas por uma painel de especialistas que não foi capaz de identificar nenhuma diferença que justificasse um alerta, pelo menos. As análises laboratoriais mostram variações, pouco significativas, nos níveis de SO2 e na coloração, principalmente no grupo que viajou de avião, o que implicaria numa maior absorção de oxigênio pelas rolhas.

A viagem e estadia espacial das garrafas do “São Pedro” trazem novas evidências para o debate. Passaram por condições extremas, repousaram um ano em gravidade zero e retornaram em nova e violenta reentrada na atmosfera terrestre.

A experiência tinha outro objetivo, estudar os efeitos da microgravidade nas propriedades químicas e biológicas do vinho. Tudo foi feito dentro de rígidos e extensos protocolos, entre eles, um período de dois meses de readaptação antes de abrir algumas garrafas para uma degustação.

Curiosos com o resultado?

O grupo de especialistas que participou desta prova, às cegas, foi unânime: a única diferença perceptível era um aumento na intensidade das notas florais. Nenhum defeito foi notado.

Será que mais um mito foi detonado?

Cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém, diz a sabedoria popular. Se vocês leram direitinho o texto, perceberam que o nosso vinho astronauta descansou um par de meses antes de ter sua rolha sacada…

Por outro lado, se as forças gravitacionais extremas, velocidade de 30.000 Km/h além vibrações e impactos brutais, não conseguiram estragar um vinho excepcional, por que deveríamos nos preocupar?

As garrafas que eu trouxe da minha recente viajem ainda estão se recuperando.  Eu continuo acreditando que este é um bom hábito. Mas os fatos foram expostos. Cabe ao leitor escolher o seu caminho.

Saúde e bons vinhos!

Foto de abertura obtida no Pexels

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