Programa de índio

Desde sempre, ir para a praia, empreender uma viagem de 3 horas (no mínimo!) para passar um final de semana me pareceu totalmente desusado. Justo eu que, ainda a caminho, começo a sofrer pelas três ou quatro horas da volta!

E penso, sem querer ser estraga-prazeres: afinal, estou indo na sexta-feira à noite e vou voltar… DEPOIS DE AMANHÃ! Só 48 horas de suposto descanso ou diversão e no mínimo SEIS HORAS presa no carro, num anda e para irritante… NÃO!! EU ME RECUSO: NÃO VOU!!

Aí vocês dirão: mas e a companhia? E a praia? E o sol? E, e… nada! Coisa alguma vai me compensar esse tempo perdido, essa tremenda… é, desculpe o mau jeito, essa encheção de saco!! O tempo maravilhoso, o bom papo, o descanso, mas… e as filas na padaria? E se esquecermos alguma coisa e tivermos que ir ao supermercado? E se na casa ao lado alguém tocar tuba?

Aí vocês dirão: não é possível, você está velha!

E sim, essa também é uma verdade, mas é preciso que eu diga que acho que nasci velha: só me lembro de ter curtido esse tipo de “programa de índio” (era assim que chamávamos esse tipo de programa que exige um sacrifício desse tamanho para ir e para voltar) aos 18 anos, de “carta nova” – e estamos falando do final da década de 1960!

Convidei duas amigas, levei minha cadela pastor alemão (não deixei por menos!) dentro num fusca pé de boi como eram chamados os fusquinhas totalmente “pelados” de acessórios que foram lançados à época e empreendi a aventura extrema de ir até Peruíbe, uma das praias menos “glamourosas” de que posso me lembrar, longe pra caramba! Para ser sincera, acho longe até hoje, mas, à época fomos, estrada afora, grandes aventureiras… mas ao menos era por duas semanas!

Pior: a casa que meu pai tinha por lá era do lado oposto ao do mar, leia-se: tínhamos que atravessar a rodovia, ainda que de mão simples de direção de lado a lado, para chegar até a praia e ainda caminhar uns 4 quarteirões carregando a tralha toda: esteiras, guarda-sol, etc.

Na sexta-feira que antecedeu o feriadão como convencionamos chamar essa “ponte” brasileira, fiquei estranhamente exultante: seria o caso de me perguntar se eu tinha algum programa fantástico para esses dias, ou se esses dias representariam para mim uma folga, um “dolce far niente” de que há muito eu estaria necessitada e eu responderia que não…

Então o que me move? O que me deixa tão feliz com essa folga?

Poder dormir até mais tarde, ler um artigo que estou querendo ler faz tempo fazendo anotações, brincar com meus bichos, fazer a barra de uma calça que há tempos estou querendo usar, replantar uma jardineira…

E é nesse momento que se manifesta a minha velhice: viajar por um único final de semana…

Desculpa aí, mas… tô fora!!

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