O Shofar

Há coisas que nos acontecem, ficando patente que nada controlamos e que o que tem que ser… será independentemente da sua vontade ou da de outrem.

Não sou uma pessoa religiosa e, ainda que eu seja de família de origem judaica, nunca me interessei por aprender o que quer que fosse sobre a religião. Como em minha casa meus pais também não professassem coisa alguma, o combinado era: “quando ela for mais velha, vai escolher por si só”.

“Ela” era eu que, de uma forma ou de outra, sou grata pela generosidade de me terem deixado a tarefa inglória da escolha de uma religião – embora eu nunca tenha feito uso dessa prerrogativa.

Tenho para mim que as religiões sempre foram foco de discórdia e ódios que em nada combinam com aquilo que, eu imagino, são os assim chamados “sentimentos religiosos”.

A ideia de Deus ser um só, e ser um Deus de amor parece reconfortante e deveria satisfazer a todos, já que é um Deus bom.

Entretanto, humanizado, tornou-se reivindicador e vingativo, disposto a castigar sempre que alguma coisa não esteja a seu contento. Abelhudo, de tudo toma ciência e partido e faz exigências de sacrifícios descabidos a todas as ovelhas do rebanho que nele acreditam – ou assim seus pastores as convencem…

Não por nada, muitas religiões trocaram esses sacrifícios por dinheiro, que acaba sendo a mais legítima “moeda de troca”: já que não consigo fazer o que Deus manda, Deus, via seu preposto, avalia quanto vale essa desobediência ou impossibilidade. Uma vez estabelecido o preço, ele é pago e… “ficamos quites” com o divino!

Bom, todo esse introito é para contar que, pela primeira vez em minha vida, por conta da pandemia, fui convidada por minha vizinha, cuja família é judia ortodoxa, a ouvir o shofar – instrumento semelhante a um berrante – que, tradicionalmente, toca nas sinagogas por ocasião da cerimônia de Rosh Hashaná – o Ano Novo judaico, que já está em 5781.

O rabino viria tocar como deferência especial para esse casal e mais as pessoas que eles convidassem para ouvir.

Convidei meu irmão, minha cunhada, um amigo e sua mãe.

O rabino tocou o shofar e disse umas palavras muito interessantes, relacionando o fato de que, para tocá-lo é necessário um exercício respiratório específico, com o fato de a respiração de muitos ter ficado comprometida por conta da COVID-19 durante quase o ano todo.

Foram palavras simples, claras e extremamente pertinentes ao momento, quando ainda temos que nos cuidar para que nossa respiração “não fique comprometida” no ano que recém começa.

Esse evento, um acaso extremamente bem-vindo, em que estivemos reunidos, até mesmo meu marido e minha cunhada, que não são judeus, para uma comemoração “ecumênica” e extremamente significativa, na qual eu não teria estado presente não fora esse convite tão generoso.

As circunstâncias de um momento ímpar em minha vida, bem como na de todos os presentes, fossem ou não religiosos, me fez acreditar que Deus, sem dúvida, esteve presente nessa ocasião tão especial e, generosamente, abençoou-nos a todos!

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