Devaneio

Sentada à sua frente, olhando-a bem nos olhos, tentando entender o que ela me dizia em três idiomas: letoniano, alemão e português. Parecia uma história desconexa e, mais eu a olhava, menos certeza eu tinha de estar diante de uma farsa…

De fato, não era; presto atenção em seu gestual, os trejeitos e sua movimentação que é pouca, quase imperceptível.

Ela me descrevia esse pai: “Meu papi, meu pai! diz ela, e, ainda assim, para mim, era uma criatura nebulosa. As outras pessoas às quais ela se referia, também.

E ela continuava se esforçando e me pedia: “Preste atenção, você vai ver…” Percebo seus gestos, sempre os mesmos, assim como são idênticas as palavras para descrevê-lo. Olho ao redor e, por perto, estão três anciãos malvestidos, de olhar perdido, fumando. Sinto o cheiro da fumaça e sei que não estou delirando.

Pelo que me disse meu amigo antes de ir embora, “não dá para explicar, é muito complicado”, provavelmente porque não sou uma pessoa de fé.

Ela volta à sua infância e ouve o pai chamá-la pelo nome que só ele usava: “Lisse, lissen” e, comovida, quase chega às lágrimas.

Repetia para mim os nomes das pessoas dessa experiência, percebo que não ouvi nenhum conhecido e penso: “Não conheço ninguém”, não os conheci e nem poderia; nessa época eu não existia.

Continuei procurando algum sinal de insanidade. Mesmo repetindo a história muitas vezes, os detalhes permaneciam idênticos. Vai ver que não lhe deram os remédios de praxe e se isso for fato, há de haver quem viu e sabe. Bisbilhotice de quem nada tem para fazer a não ser cuidar da vida alheia.

E ela vaticinou: “você há de escrever a respeito e todos hão de ler encantados e elogiarão seu texto…”

Indo em direção à porta, por enquanto rejeito a oportunidade de escrever essa saga, basta conhecê-la e fazer parte dela…

Um dia volto e a história há de ser a mesma, sem tirar nem por e, se eu sentir que é mesmo tão fundamental, escrevo.

Escolho “Devaneio” como título desta crônica e me pergunto se não será muita pretensão. Acabo por decidir que não, não é, posto que esta é a primeira vez que penso em uma palavra leve para definir esse diálogo.

É a primeira vez que não me sinto angustiada, triste – sinto que estou crescendo, ficando melhor à medida que envelheço, como um bom vinho e lembro que sempre achei estranho deixar para curtir algo bom e à mão em ocasiões longínquas…

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